QUEM SÃO NOSSOS FILHOS?


          Por maior que seja o nosso esforço em tentar saber quem são os nossos filhos, por mais que possamos sondar suas almas, desnudar-lhes o caráter, traçar o perfil que lhes marca a personalidade, estudar suas atitudes e equacionar o comportamento que direciona os seus passos, não lograremos êxito em saber, realmente, quem são aqueles que durante um período da nossa existência convivem conosco sob o mesmo teto, comem conosco à mesa, vestem as roupas que lhes compramos e, embora tenham – aparentemente – aprendido tudo conosco, não pensam como nós, na grande maioria das vezes...

          Afinal, quem são nossos filhos?

          Poderíamos dizer – na tentativa de acertar – que eles se encaixam, por certo, em qualquer das situações protagonizadas pelos personagens já citados, mesmo porque essas situações não deixam de ocorrer no dia-a-dia dos simples mortais que são desconhecidos pela História.
          Ledo engano!... Com mais segurança, podemos afirmar que os nossos filhos se encaixam nas centenas e centenas de situações... que não foram citadas!
          Então, como defini-los?
          Gibran Khalil Gibran escreveu sobre os filhos com inusitado acerto e rara e impetuosa beleza. Em seu magistral livro intitulado O Profeta(1), ele narra os diálogos ocorridos entre o povo da cidade de Orphalese e o profeta Al-Mustafá, quando este – após doze anos de convivência com aquela gente – vai deixar Orphalese e retornar à ilha onde nascera. É quase poético(2):

           “E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: — Fala-nos dos filhos.”

          E ele disse:

           “Vossos filhos não são vossos filhos.
          São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.
          Vêm através de vós, mas não são de vós.
          E embora vivam convosco, não vos pertencem.
          Podeis outorgar-lhes o vosso amor, mas não vossos pensamentos.
          Porque eles têm seus próprios pensamentos.
          Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
          Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
          Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós;
          Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
          Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
          O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
          Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
          Pois assim como ele ama a flecha que voa, também ama o arco que permanece estável.”

* * *

          É verdade! Nossos filhos não são nossos filhos. São filhos de Deus. Quais argumentos – com base filosófica, evidentemente – podemos antepor a esta idéia?
          Conhecer nossos filhos é um tanto quanto difícil, porque não sabemos qual é a idade dos filhos de Deus e nem o que eles sabem e o que não sabem, quando vêm morar conosco.
          São, espiritualmente falando, jovens ou não? Em que faixa evolutiva se encontram? Quais vícios e quais virtudes apresentam? O que necessitam aprender no contexto da vida? Eles sabem a diferença entre o Bem e o Mal?

          Deus coloca Seus filhos em nossas mãos para que possamos educá-los. É um dever do qual não podemos nos esquivar. É bem verdade que muitas pessoas poderão dizer que não acreditam nisso. É o de menos. Quando o homem foi à Lua, em 1969, muitas pessoas não acreditaram. Algumas concluíram, simplesmente, que era uma encenação dos Estados Unidos, uma “propaganda americana” de autopromoção. No entanto, Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins estavam lá...

          Allan Kardec – o célebre codificador do Espiritismo – obteve a seguinte resposta ao formular a pergunta que na sua incomparável obra O Livro dos Espíritos recebeu o nº 208:
           “O espírito dos pais não exerce influência sobre o do filho, após o nascimento?
          — Exerce, e muito, pois como já dissemos, os espíritos devem concorrer para o progresso recíproco. Pois bem: O espírito dos pais tem a missão de desenvolver o dos filhos pela educação. Isso é para ele uma tarefa! Se nela falhar, será culpado.”
          Na questão nº 209 encontramos:
           “Por que pais bons e virtuosos têm filhos perversos? Ou seja: por que as boas qualidades dos pais não atraem sempre, por simpatia, bons espíritos como filhos?
          — Um mau espírito pode pedir bons pais, na esperança de que seus conselhos o dirijam a uma senda melhor, e muitas vezes Deus o atende.”
          Questão nº 210:
           “Os pais poderão, pelos seus pensamentos e as suas preces, atrair para o corpo do filho um bom espírito, em lugar de um espírito inferior?
          — Não, mas podem melhorar o espírito da criança a que deram nascimento e que lhes foi confiada. Esse é o seu dever: filhos maus são uma prova para os pais”.

* * *

          Quem são nossos filhos? São filhos de Deus... os quais devemos educar.
          Qual outro raciocínio, dentro da lógica e sem sofismas, pode opor-se a este?
          Nenhum!


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(1) Obra da autoria de Gibran Khalil Gibran, com direitos reservados a Mansour Challita, editada por Catavento – Distribuidora de Livros S/A – São Paulo – 1976.
(2) Texto extraído do livro O Profeta, acima citado.

Texto extraído do livro “Quem é seu filho?”, do escritor e orador espírita Dr. Pedro A. Bonilha.