|
130 ANOS DE “A GÊNESE”
por Dr. Eliseu F. da Mota Júnior
Na
edição de setembro de 1867 da “Revista Espírita”, Allan Kardec resolveu
antecipar o capítulo I de um novo livro que ele prometia publicar
brevemente. O artigo, intitulado Caracteres da Revelação Espírita,
foi mantido íntegro na obra “A Gênese”, os milagres e a predição segundo
o Espiritismo, que circulou oficialmente no dia 6 de janeiro de 1868.
Desse modo, no dia 6 de janeiro de 1998 estaremos comemorando 130
anos da 1ª edição do trabalho que complementou a codificação espírita.
Com efeito,
publicado após “O Livro dos Espíritos” (1857), “O
Livro dos Médiuns” (1861), “O Evangelho Segundo o Espiritismo”
(1864) e “O Céu e o Inferno” (1865), “A Gênese”,
como este livro é mais conhecido dentro do movimento espírita, é o
quinto e último na ordem cronológica das obras consideradas básicas
do Espiritismo. Certamente Allan Kardec pretendia publicar outros
trabalhos literários, mas a sua desencarnação no princípio do ano
seguinte (31 de março de 1869) colocou fim ao seu extraordinário esforço
de síntese, sem contudo impedir que seus escritos esparsos viessem
ao nosso conhecimento, através do volume contendo suas Obras Póstumas.
A Gênese
e o seu conteúdo — Qual teria sido o propósito do mestre Kardec
com a publicação de A Gênese? Cremos que seus objetivos foram múltiplos,
mas a própria estrutura da obra parece revelar que o alvo principal
do livro foi desenvolver mais amplamente a concepção espírita de Deus
e do Universo, depois de oferecer ao leitor uma admirável síntese
das principais características da Doutrina Espírita – tudo isso
sem prejuízo do enfrentamento de outros temas altamente polêmicos,
como os milagres e as predições de Jesus Cristo.
Mantendo
o rigor científico que caracterizou as obras anteriores, Allan Kardec
inicia o texto de “A Gênese” explicando ao leitor o plano
completo do livro (Introdução), prosseguindo com o desenvolvimento
da primeira parte da obra, a qual foi especialmente destinada ao estudo
da Gênese, que tem início com a exposição do Caráter da revelação
espírita (Capítulo I). A seguir, lembrando que Deus é a “causa
primária de todas as coisas, a origem de tudo o que existe, a base
sobre que repousa o edifício da Criação”, e que, da mesma forma,
é o ponto que deve ser considerado antes de tudo, passa a estudar
minuciosamente a natureza divina, a Providência e a visão de Deus
(Capítulo II). Vem depois a análise do bem e do mal, com a distinção
entre instinto e inteligência, seguindo-se interessante comentário
sobre o grave problema decorrente da destruição dos seres vivos uns
pelos outros (Capítulo III).
Ato contínuo,
o mestre entra decisivamente no tema da criação, começando por analisar
o papel da Ciência na Gênese (Capítulo IV), para logo expor os antigos
e modernos sistemas do mundo (Capítulo V). No tocante ao estudo do
espaço e do tempo, Kardec valeu-se principalmente das comunicações
recebidas pelo então jovem astrônomo e médium Camille Flammarion (Capítulo
VI), dedicando-se depois a comentar o esboço geológico da Terra (Capítulo
VII), as teorias sobre a formação da Terra (Capítulo VIII), as revoluções
do Globo (Capítulo IX), a Gênese orgânica (Capítulo X), a Gênese espiritual
(Capítulo XI) e finalmente a Gênese mosaica (Capítulo XII).
A segunda
parte da obra dedica-se exclusivamente a mostrar ao leitor a explicação
espírita para os chamados Milagres atribuídos a Jesus Cristo pelos
evangelistas. Para isso, Allan Kardec alinha os caracteres dos milagres
(Capítulo XIII), estuda com riqueza de pormenores os fluidos (Capítulo
XIV) e analisa os milagres do Evangelho (Capítulo XV).
Finalmente,
na terceira e última parte do livro, o ilustre pedagogo de Lyon examina
com profundidade e argúcia as Predições, desenvolvendo metodicamente
a teoria da presciência (Capítulo XV) e as predições do Evangelho
(Capítulo XVI). No crepúsculo da obra, Kardec alerta aos menos avisados
de que já são chegados os tempos (Capítulo XVIII).
Método
de estudo — A codificação espírita pode ser comparada a uma
grande árvore, cujo tronco é “O Livro dos Espíritos”.
Suas quatro partes funcionam como bases naturais para as outras obras
básicas, pois a primeira parte do nosso livro fundamental (“Das
causas primárias”) está relacionada com “A Gênese”,
os milagres e as predições segundo o Espiritismo, enquanto que a segunda
parte (“Do mundo espírita ou mundo dos espíritos”) encontra
a sua seqüência em “O Livro dos Médiuns”. Por seu turno,
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” decorre da terceira
parte (“Das leis morais”) e finalmente a quarta parte
(“Das esperanças e consolações”) é alongada em “O
Céu e o Inferno”, ou a justiça divina segundo o Espiritismo.
Sendo
assim, todos que tenham interesse em conhecer as explicações do Espiritismo
para temas complexos como a concepção espírita de Deus, a criação
do Universo, a polêmica em torno de Adão e Eva, o bem e o mal, o instinto
e a inteligência, os milagres e predições de Jesus Cristo, devem realizar
um estudo pormenorizado deste livro (“A Gênese”), simultaneamente
com a primeira parte de “O Livro dos Espíritos”.
Entretanto,
deveremos levar sempre em consideração uma sincera e leal advertência
do próprio Allan Kardec, feita exatamente na introdução à primeira
edição francesa de “A Gênese”, a qual gostaríamos de transcrever
aqui à guisa de conclusão desta modesta homenagem aos 130 anos daquele
admirável livro.
Escreveu
o mestre:
“Os
mesmos escrúpulos havendo presidido à redação das nossas outras obras,
pudemos, com toda verdade, dizê-las: segundo o Espiritismo, porque
estávamos certo da conformidade delas com o ensino geral dos Espíritos.
O mesmo sucede com esta, que podemos, por motivos semelhantes, apresentar
como complemento das que a precederam, com exceção, todavia, de algumas
teorias ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais
e que devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto não
forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que recair sobre a doutrina
a responsabilidade delas” (texto extraído, menos os grifos,
da 28ª edição da FEB, que ao mesmo aditou a seguinte nota da redação:
Ao leitor cabe, pois, durante a leitura desta obra, distinguir a parte
apresentada como complementar da Doutrina, daquela que o próprio autor
considera hipotética e pessoalmente dele).
|