ENTREVISTA COM HELOÍSA PIRES


          Divaldinho Mattos: Heloísa, qual o motivo de tantas divergências no Movimento Espírita, concernentes ao próprio entendimento de nossa Doutrina?

          Heloísa Pires:
Herculano Pires explica, no seu livro: “Curso Dinâmico de Espiritismo ou O Grande Desconhecido”, que o espírita, ou melhor, os que se dizem espíritas querem atender a Doutrina apenas lendo os romances. Não dá! É como tentar entender Física através da revista “Veja”.

          Divaldinho Mattos: Esta divergência se dá, devido ao personalismo do homem ou a questões de pontos doutrinários?

          Heloísa Pires:
O personalismo do homem, a vontade de aparecer, o novidadeirismo, também geram incompreensão constante.

          Divaldinho Mattos: Nas andanças por este abençoado Movimento, como analisa você estas guerras entre espíritas, e por incrível, todos a serviço da nossa causa?

          Heloísa Pires:
Depende de quem não entende o Espiritismo; se a causa é a simplicidade, a falta de maturidade espiritual, fico triste, quando a incompreensão é fruto da arrogância, da falta de leitura ou da deturpação de Kardec, pelo desejo de aparecer, fico indignada. Não se lembram da morte, não pensam na responsabilidade perante a Verdade, que deve ser deixada sem deturpações para as futuras gerações? Muitos julgam-se eternos no corpo físico.

          Divaldinho Mattos: Estes grupos e dirigentes que vivem a falar mal e o criticar centros e dirigentes causam mal ao próprio Movimento?

          Heloísa Pires:
“O Evangelho segundo o Espiritismo” convida-nos a compreender o perigo de falar mal de pessoas e instituições. A crítica construtiva esclarece os indivíduos e evita a repetição de erros. Mas existe um abismo entre a crítica construtiva e a maledicência. A primeira esclarece, a segunda provoca degeneração no campo eletromagnético de quem a produz e atrai entidades igualmente necessitadas. O caminho do meio é sempre necessário. Não podemos ser coniventes com erros doutrinários, mas também não podemos ficar em animosidade, em luta contra os próprios companheiros.

          Divaldinho Mattos: E quanto a presidentes de centros que nomeiam outros e somente eles é que dirigem; como testas de ferro, não assumem mas comandam?

          Heloísa Pires:
Ah! São muito interessantes os “ditadores” das Casas Espíritas; são políticos frustrados perdidos na Doutrina Espírita. Estão no lugar errado; deveriam procurar outro local para conseguirem a expressão no autoritarismo. Mas terríveis também são os que aceitam a expressão de “ testas de ferro”. Que estranho um indivíduo abdicar da liberdade e do respeito a si mesmo para virar “capacho” de outro! Esse querido planeta Terra é demais, existe gosto para tudo; uns gostam de mandar e outros procuram os que podem dirigi-los, incapazes que são de se conduzirem como seres racionais. Para eles o ideal é o duplo “esforço de freio e da espora”, como explica “O Evangelho segundo o Espiritismo.”

          Divaldinho Mattos: Se o Espiritismo deve, como foi anunciado, realizar a transformação da humanidade, só poderá fazê-lo pelo melhoramento dos maus. Como vê você os espíritos se amassando?

          Heloísa Pires:
O Espiritismo, como explica “Obras Póstumas”, no item “Futuro do Espiritismo”, vai libertar a Terra do orgulho e do egoísmo através da Educação na compreensão da Verdade. Todos os indivíduos da Terra serão bons; são omissos, mas realmente bons, preocupados com o próximo; os que não conseguirem a grande transformação renascerão em planetas difíceis. Uma característica da bondade é a tolerância. Podemos discordar do modo de pensar do nosso irmão, mas isso não impede que o amemos e que consigamos dialogar sem agredi-lo. Diálogos esclarecedores sobre os pontos doutrinários são importantes; agressões verbais, tentativas de denegrir a imagem do outro revelam imaturidade e profunda necessidade espiritual.

          Divaldinho Mattos: Qual sua visão quando Allan Kardec coloca em o Livro dos Médiuns, capítulo XXIX, o item 348 – “ Rivalidade entre sociedades”?

          Heloísa Pires:
No item sobre “Rivalidade entre as sociedades”, Kardec chama a atenção para a necessidade de Unificação, para que o Espiritismo, forte, realize a sua tarefa. Mas é claro que a Unificação será dentro da verdade; podemos deixar de lado discussões pueris como a questão levantada sobre o número de médiuns na desobsessão; mas não podemos, em nome da Unificação, permitir a introdução de enxertos espúrios, não podemos permitir a mutilação do Espiritismo; já fizemos isso com o Cristianismo e o resultado foi triste. Agora é a hora, como diz Kardec, de “colocar os pingos nos iis”. O espírita deve realizar a sua tarefa na divulgação dentro dos preceitos do Amor que envolvem tolerância e firmeza; amor para com o próximo que se revela no Amor para com a verdade, para com a Doutrina Espírita, respeitando-a e respeitando o trabalho de Kardec que teve a assessoria do Espírito da Verdade.

          Divaldinho Mattos: Heloísa, em recordando nosso Herculano Pires, qual sua visão ante este problema sério em nosso Movimento Espírita: a rivalidade entre irmãos?

          Heloísa Pires:
A palavra “rivalidade” aparece no Dicionário como “competição, ciúme, inveja”. Esses defeitos não podem continuar a se exibir em quem se diz espírita. Mas analisando a marcha do Cristianismo, verificamos as terríveis conseqüências das nossas omissões, do nosso imediatismo, dos interesses aos quais nos entregamos, tentando criar uma religião que estivesse de acordo com a nossa incompetência na admiração das emoções. Agora é necessário refletirmos sobre como agirmos na divulgação do Espiritismo, qual é a nossa mola de ação: é a vontade de ser útil à divulgação ou é o desejo de repetir os erros do passado um trampolim para a nossa vaidade e colocando-nos a serviço das instituições e não de Jesus; quem é mais importante para nós: Jesus ou os aplausos efêmeros do mundo? Paulo de Tarso escolheu o serviço com Jesus; assemelhando-nos mais a Saulo, escolhendo os aplausos do Sinédrio. Rivalidade, luta por cargos efêmeros, não. Mas omissão, permitindo o atraso da divulgação do Espiritismo, como fizemos com o Cristianismo, jamais. A hora é de Amor, Compreensão e Firmeza; primeiro para com a Doutrina Espírita, mas ataques pessoais não cabem nessa hora difícil de transição do planeta Terra; não mais podemos nos comportar como moleques birrentos; a expressão da Verdade. A hora é da divulgação do Espiritismo no respeito a Kardec, missionário assessorado pela Equipe do Espírito da Verdade; nenhum de nos tem ou teve tal assessoria...