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ENTREVISTANDO O
PROF. ALÍNDAR DE OLIVEIRA
AUTOR DO
“CURSO DE COMUNICAÇÃO VERBAL”
Divaldinho
Mattos: Como professor de Comunicação, de que maneira se educa a voz?
Alkíndar
de Oliveira: Além de procurar ter boa pronúncia
e dicção, o orador deve utilizar-se do ritmo da voz, que nada mais
é do que a correta utilização das pausas e as variações do volume
da voz e da velocidade da fala. Como conseguir tudo isto? Vamos por
partes.
Para melhorar
a pronúncia, o orador precisa primeiro conhecer sua voz. Leia um texto
em voz alta e grave em fita cassete. Depois fale qualquer coisa em
torno de dois minutos (mesmo que sejam frases e conteúdo sem sentido)
e grave também. Ouça a fita. Verifique se você fala “estudá”
em voz de estudar; “fevereiro” em vez de fevereiro, “vamo”
em vez de vamos.
Imaginemos
que você descobriu que não pronuncia os erres finais (fala “fugi”
em vez de fugir, “calá” em vez de calar). Escreva uma
relação de 10 palavras que terminam com a consoante “r”
e, num determinado horário do dia, leia em voz alta por várias vezes
esta relação. Procure caprichar na pronúncia. Depois de algum tempo,
que varia de pessoa para pessoa, você terá adquirido o novo hábito
de pronunciar os erres finais.
Para melhorar
a dicção, coloque um lápis entre os maxilares e, uma vez por semana,
com o lápis na boca, leia três minutos de um texto qualquer. Sua dicção
irá melhorar consideravelmente.
Finalmente
para utilizar o ritmo da voz basta aplicar a regra básica da comunicação:
“fale com sentimento”. Sinta o que você está dizendo.
Não fale só com sua mente mas também com o coração e, então, o ritmo
da voz naturalmente se fará presente.
Divaldinho
Mattos: O expositor necessita falar com sinceridade de alma ou a Oratória
é somente uma peça literária?
Alkíndar
de Oliveira: Todo expositor deveria utilizar a sinceridade na
fala. Mas infelizmente existe o denominado orador ator. Aquele que
representa. Aquele que ao falar da benevolência parece ser a santidade
em pessoa. Mas em casa... briga constantemente com os filhos, é autoritário
com a esposa. O orador espírita deve procurar colocar sinceridade
em sua fala, assim crescerá enquanto orador e enquanto pessoa.
Divaldinho
Mattos: Nas palestras de muitos confrades, sabe-se acharem eles devam
ser em tom de “modernidade”, sem mencionar o Espiritismo.
Que acha desse posicionamento?
Alkíndar
de Oliveira: Nada há mais moderno do que o Espiritismo. Quem nunca
conheceu o Espiritismo e agora está conhecendo-o fica admirado pelos
seus ensinamentos lógicos e cristalinos. Fica admirado pela atualidade
dos seus textos. Portanto erra o orador espírita que em seus temas
não focaliza o que o Espiritismo tem o melhor a oferecer, que é o
próprio Espiritismo.
Por outro
lado o orador espírita não pode ficar impedido de trabalhar temas
outros que também façam parte das necessidades atuais. No entanto,
qualquer que seja o tema a ser abordado, o objetivo maior deve ser
desenvolvê-lo à luz do Espiritismo. À luz do Espiritismo, o que era
um bruto diamante transforma-se num maravilhoso e indescritível brilhante.
Divaldinho
Mattos: No preparo de uma palestra, deve o orador que conhece o público
agir de “bastão na mão”, como dono da verdade?
Alkíndar
de Oliveira: Não. Ninguém gosta de ouvir sermões. Aliás sermão
não é comunicação. É desabafo. Obviamente não estou falando dos sermões
clássicos, por exemplo os Sermões de Padre Vieira, que são verdadeiras
aulas de oratória. Estou falando daquelas exposições onde o orador
coloca-se, como você já disse, na posição de dono da verdade, e fere
a sensibilidade do ouvinte, fazendo com que este “tape”
os ouvidos.
Às vezes
um dirigente espírita pode e deve desabafar com sua equipe. Atenção:
eu disse às vezes. Como exceção à regra desabafos de vez em quando
funcionam. Eu disse que às vezes “o dirigente” pode e
deve desabafar com a sua equipe, mas sim para uma platéia ávida por
ouvir frases ternas, esclarecedores e envolventes. E esta platéia
não gosta de ver o orador como dono da verdade.
Divaldinho
Mattos: Nas alocuções de oradores que descrevem cenas dantescas, episódios
fúnebres, isto choca os assistentes ou deve ser abordado?
Alkíndar
de Oliveira: No estudo da Doutrina para um grupo fechado, para
um grupo que por exemplo estuda de forma sistematizada O Livro dos
Espíritos, tudo pode ser dito, tudo deve ser discutido. Obviamente
com respeito, vocabulário adequado, bom senso e conhecimento de causa.
Em palestras
públicas o trágico, o triste, o chocante, devem ser evitados. Existem
oradores que comprazem se em chocar o público, em falar coisas tristes,
em dizer frases como “choro e ranger de dentes”, “escuros
e gosmentos ambientes umbralinos”, “estamos na Terra para
sofrer!!!”. Assim agindo, o orador faz com que o público, que
ali está presente para receber luz, alegria e conhecimento saia no
final da palestra levando sombra, tristeza e desânimo.
Divaldinho
Mattos: Deve o expositor espírita confiar mais no guia do que em si
mesmo?
Alkíndar
de Oliveira: O orador espírita deve confiar mais em si mesmo,
isto é, em seus estudos e preparos adequados. Mas deve o orador espírita
ter plena certeza de que a ajuda espiritual não irá faltar-lhe. Se
fizer sua parte.
Os braços
mostram suas forças através dos movimentos das mãos.
Nós somos
as mãos, nossos guias são os braços fortes. Se nossas frágeis mãos
não se movimentarem, os braços não conseguirão mostrar suas forças.
Movimentamo-nos através dos nossos estudos e de nossa disposição para
o trabalho e, então, a ajuda e a força espiritual dos nossos guias
sempre estarão presentes.
Divaldinho
Mattos: Ao falar a uma platéia heterogênea, deve o expositor espírita
usar o posicionamento mais culto ou falar de modo acessível a todos?
Alkíndar
de Oliveira: Falar bem é falar de forma simples. Se o orador tem
boa cultura, deve demonstrá-la através do bom conteúdo e das técnicas
utilizadas. Já passou a época gongórica, onde bom orador era aquela
que falava “bonito”, mas ninguém entendia.
Procure
utilizar um vocabulário rico (conseqüência de suas constantes leituras),
mas que seja essencialmente simples. Disse simples, não simplório.
Divaldinho
Mattos: O orador espírita deve por boa atitude, eximir-se de dizer-se
problemático ou que não passa por problema algum e quem sofre são
os outros, pois ele é... imune?
Alkíndar
de Oliveira: O bom orador espírita deve esmerar-se em projetar
para o público “o que ele é”: um ser imperfeito. Deve
expor-se mostrando que, como qualquer outra pessoa, enfrenta problemas
na vida, que como qualquer outra pessoa tem suas idiossincrasias.
No entanto, se é importante que o bom orador espírita assim proceda
é, por outro lado, fundamental que dê especial atenção em relação
aos dois seguintes pontos que irei expor:
Primeiro:
Ao mesmo tempo que o público deve perceber no orador uma pessoa também
imperfeita, este mesmo público deve notá-lo como um “lutador”,
isto é, deve notá-lo como alguém que não se conforma com suas imperfeições
e que luta continuamente para combatê-las, pois esta é a verdadeira
imagem de um espírita: alguém que esforça-se continuamente para vencer
suas imperfeições morais. Tornar evidente em suas palestras o contínuo
esforço para melhorar-se é o maior bem que o orador espírita pode
fazer para seu público.
Segundo:
O bom orador espírita deve ter consciência que as dores e os problemas
por quais passamos não necessariamente devem levar-nos ao sofrimento.
Se o Espiritismo é o Consolador Prometido (e é) o bom orador espírita,
por ser espírita, deve saber consolar e consolar-se, isto é, deve
projetar para o público a imagem – real – de alguém que
não visualiza as dores e os problemas naturais como sofrimentos. Se
lembrarmos Joanna de Ângelis, que diz que devemos analisar as nossas
dores e problemas através do ponto de vista espiritual, entenderemos
que a Terra é uma abençoada escola. E que ninguém nasceu para sofrer,
mesmo que este alguém tenha dores intensas e problemas imensos. Lembre-se
de Jerônimo Mendonça. Ele não sentia dores? Ele não tinha problemas?
Sim, sentia dores imensas no peito. Sim, tinha problemas: o corpo
estava totalmente paralisado e além disso era cego. Mas era um dos
oradores espíritas mais alegres do nosso meio. Entendia Jerônimo Mendonça
que o Espiritismo é Consolador que, como não poderia deixar de ser,
esclarece e consola.
O orador
espírita deve projetar alegria, deve ser instrumento de consolo.
Divaldinho
Mattos: São válidas as palavras veiculadas pelo orador em ação retroativa,
com o fim de consertar o que foi dito?
Alkíndar
de Oliveira: Se o erro cometido prejudicar a estrutura da fala,
ele deve ser reparado. Se não prejudicar, deixe passar. Pois caso
contrário irá desnecessariamente colocá-lo em evidência.
Divaldinho
Mattos: Qual a sua mensagem aos neófitos do “Ide e Pregai”
e aos já tarimbados?
Alkíndar
de Oliveira: Antes de cada palestra todo orador espírita deveria
ler de forma íntima e silenciosa o belíssimo texto espírita que fala
sobre o “Ide e Pregai”. Seria uma valiosa contribuição
à necessária concentração prévia. No citado texto encontramos esclarecimentos
e alentos que colocam as exposições numa merecida ordem de grandeza.
Sem o orgulho tolo, sem ostentação e sem prepotência, o orador espírita
(seja aquele mais experiente, que fala há mais tempo, ou o neófito)
deve compreender o sublime momento de sua palestra. Momento onde o
Alto derrama luzes sobre todos que ali estão. Momento onde o intercâmbio
com a Espiritualidade é sentido por todos que ali colocam seus corações.
Um evidente
contra-senso em nosso meio é, de vez em quando, encontrarmos oradores
espíritas vaidosos. Coloquemo-nos como modestos instrumentos da bondade
divina. Não esquecendo nunca, conforme disse Padre Vieira, que nada
há tão grande como a humildade.
Ao neófito
digo: não desista. Ao tarimbado: evite ser prolixo.
A ambos:
façam sua oração íntimas antes e depois da palestra, estudem sempre,
valorizem a técnica, utilizem a emoção e sejam humildes.
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