O QUE É UM CENTRO ESPÍRITA?


Por Mauro Operti
 

          Uma escola, um templo e um hospital, é a clássica resposta. Não me lembra qual o espírito que nos trouxe esta idéia: se Emmanuel, se André Luiz ou outro qualquer. Tornou-se quase um clichê, o que não lhe tira a força nem lhe altera o significado. O centro espírita é uma escola de vida, em que aprendemos a lidar com o nosso semelhante. É o lugar em que nos voltamos para Deus, aprendendo a louvá-lo e respeitá-lo, substituindo a visão antiga do temor a Deus pela visão amorosa do Pai, que Jesus tirou dos limites estreitos do judaísmo para legar à humanidade. E é o lugar onde, pelo trabalho, vamos curando as nossas mazelas e feridas, adquiridas no rolar dos milênios ...
          Bendita idéia, esta, consoladora e dulcificante, unificando as visões particularistas daqueles que, por força das suas necessidades espirituais ou pela limitação dos seus objetivos trabalham somente determinadas áreas das suas almas. Eu creio, porém, que há uma visão da Doutrina Espírita que necessita ser melhor considerada e operacionalizada, de modo a permitir aos espíritas uma avaliação mais precisa da sua posição e do seu papel no mundo.
          Esta visão mais alta tem sido negligenciada, à proporção que leva cada vez mais numerosas de pessoas desnorteadas e sofredoras têm chegado às casas espíritas, necessitando apoio imediato para enfrentarem as suas dificuldades. Estas muitas pessoas encontram alívio e descanso, ao menos relativo. Vislumbram um caminho e procuram segui-lo, apegando-se ao trabalho renovador. Mas os clichês mentais e a visão mundana que plasmaram durante muitos anos, naturalmente não lhes permitem alcançar o verdadeiro significado daquele espaço físico e da conjugação de forças espirituais, dos mais diversos níveis, que lá operam.
          Estas forças afluem com tanto maior intensidade quanto maior a disposição de trabalho e o sentido de elevação que caracterizam o grupo de almas que se reúnem naquele espaço. Na realidade, um centro espírita se confunde com os seus trabalhadores. Um centro espirita é o conjunto dos seus trabalhadores, encarnados e desencarnados. Não são as suas paredes ou os seus recursos, mas as mentes e as vontades que ajudaram a criá-los e que permitem mantê-los. O que estes trabalhadores estão fazendo é transmitir, de acordo com as suas elevações e as suas percepções e através dos seus atos, esse magnifico resumo prático, operacional e funcional das Leis da Vida que é a Doutrina Espírita.
          A Doutrina Espírita é a forma que os Espíritos Elevados conceberam para mostrarem aos homens a idéia Fundamental e todas as suas conseqüências, no mundo moral e no mundo mental, a idéia de que eles, homens, são seres espirituais que sentem e pensam e não apenas corpo com instintos e mecanismos fisiológicos.
          O conhecimento das leis que regem as relações entre o mundo espiritual e os seres encarnados modifica profundamente o modo pelo qual equacionamos os problemas e modelamos as soluções para os conflitos entre seres humanos, tanto no âmbito individual como no social. O entendimento e a internalização destas idéias é que determinam a visão de mundo que direciona os atos de cada homem sempre de forma altruística, porque nem todos os homens (ou talvez quase nenhum homem) percebem que o modo pelo qual ele concebe a natureza do ente humano e o seu papel no universo é que está por trás de cada uma das suas atitudes diante da vida.
          Em realidade, a transmissão desta idéia fundamental e de todas as suas conseqüências, aquilo que chamamos acima de As Leis da Vida, esta sim é a finalidade precípua da utilização do espaço físico e dos recursos que associamos ao centro espírita. Todos os outros aspectos que são relacionados para definir o centro espírita são, em verdade, derivados desta função básica.
          Tudo isto, pensado e pesado, não impede que muito, muito bem se faça, que muito consolo seja distribuído, que muitas dores sejam aliviadas, que muito esclarecimento seja proporcionado, mesmo quando esta concepção não é percebida com nitidez. Estes conhecimentos não substituem a consolação e o alívio que encontramos nas nossas abençoadas casas espiritas.
          Fundamenta-os, completa-os, torna-os perenes e não transitórios e ao sabor das pressões e turbulências que povoam os nossos caminhos. Informações mais precisas sobre as características do ser espiritual e sobre os seus modos de percepção, uma concepção mais clara da real natureza do mundo espiritual, fugindo um pouco dos clichês, que diríamos quase-burocráticos, que povoam as cabeças dos espíritas, que lêem muita literatura mediúnica, mas esquecem “O Livro dos Espíritos”, uma visão talvez mais real e menos romântica do processo reencarnatório, não estariam entre as menores necessidades numa reformulação do aprendizado espírita.
          Talvez seja demasiado desejar que dirigentes, trabalhadores e freqüentadores das casas espíritas, especialmente nos tempos turbulentos que enfrentamos, tenham sempre claramente definida esta concepção mais elevada da Doutrina Espírita. Entretanto, esta visão permite melhor definir objetivos e estabelecer melhores procedimentos, já que, em muitos exemplos que conhecemos, a falta desta visão mais alta tem levado a resultados muito tristes. Confundem-se os objetivos do centro espírita com os objetivos do mundo ou se o transforma em um pólo assistencial comunitário, o que também se enquadra na perspectiva mundana. Por mais nobres e corretos que estes objetivos do mundo pareçam ser, corremos sempre o risco de seguir por vias equivocadas, se perdemos o ponto de referência. Pensemos...


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Extraído da “Revista de Estudos Espíritas”
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