É POSSÍVEL SER FELIZ?


ENTREVISTA COM O RENOMADO TRIBUNO ESPÍRITA
DIVALDO PEREIRA FRANCO



          Marcos Ferreira: Mera utopia ou meta real, a felicidade é eterno objetivo visado pelos homens e mulheres, sem, todavia, havê-la conquistada. Haverá, a Humanidade, de sofrer novas modalidades de vicissitudes infelizes para a decantada fase planetária de Regeneração, trazendo harmonia para a sociedade?

          Divaldo Pereira Franco:
A felicidade consiste na conquista de uma consciência reta que deflui dos deveres nobremente executados. Portanto, sob essa óptica, ela é possível e existe em grande escala no mundo. Sucede, porém, que se confunde felicidade com prazer, com atitudes utópicas de bem-estar incessante e gozo intérmino. Sob esse aspecto, trata-se de uma fantasia, em razão da conjuntura orgânica, na qual, o ser transita, não poder oferecer um estado de saúde perfeita e de emoção superior permanente. Num mundo de relatividades, tudo obedece à conjuntura da transitoriedade, sendo somente possível a plenitude, no reino além deste mundo...
          Não aceitando, o ser humano, a proposta do amor para ser feliz, experimentará, inevitavelmente, a Lei de Destruição e os seus impositivos, a fim de despertar para a realidade e experimentar a regeneração, que o tornará pleno ao término do labor.

          Marcos Ferreira: Você, no passado, antes de conhecer o Espiritismo, e hoje, que bem o conhece, certamente mudou muito e para melhor. E, quanto ao estado de ventura, mudou também? Então, o que, principalmente (fato ou circunstância), contribuiu para essa mudança?

          Divaldo Pereira Franco:
O Espiritismo é uma ciência e uma filosofia ético-moral de conseqüências religiosas tão abrangentes que, à medida que a penetramos, mais identificamos horizontes que se desdobram ao infinito, concitando-nos ao seu estudo, compreensão e vivência. Certamente, hoje me encontro mais bem equipado de informações e instrumentos doutrinários do que no início, quando totalmente desconhecedor da Terceira Revelação, como bem acentuou Allan Kardec.
          Em razão da paz de consciência que o dever retamente exercido me vem proporcionando, são muitos os momentos de ventura e de harmonia, apesar dos desafios e dificuldades do caminho de ascensão.
          O que mais tem influenciado essa consciência de paz é a identificação dos deveres que libertam e a oportunidade de crescimento interior, introjetando as lições incomparáveis de Jesus sob a visão do Espiritismo. Quanto mais me esclareço e sirvo, melhor me sinto perante mim mesmo e, certamente, diante da Consciência Cósmica.

          Marcos Ferreira: Muitas pessoas demandam a Casa Espírita, em busca de soluções para seus problemas. Freqüentemente, ou são resolvidos ou não, a contento. Dentre eles, está o relacionamento conjugal. Qual seria o conselho certo para transmudarem o insucesso em relacionamento feliz?

          Divaldo Pereira Franco:
É natural que, aturdidas, as criaturas humanas procurem no Espiritismo o que não conseguiram em outros setores filosóficos e religiosos da atualidade. Os seus tormentos e as crises de relacionamento tornam-lhes as existências um abismo de aflições. No entanto a função primacial do Espiritismo é libertar o ser da ignorância e despertá-lo para a realidade que é, como ser imortal, facultando-lhe o entendimento das Soberanas Leis da Vida.
          Não obstante, oferece a receita da paz através da submissão às ocorrências dolorosas pelas quais não é responsável neste momento, mas que procedem de outras experiências que ficaram no pretérito e não desapareceram. A melhor orientação a ser dada em situação que tal, consiste em concitar o indivíduo à compreensão da Justiça Divina e à ação do bem incessante, através de cuja conduta se apazigua e adquire méritos espirituais para ser feliz, não conforme planeja, mas consoante é melhor para o seu progresso.

          Marcos Ferreira: Divaldo, observa-se que, a cada dia, se verificam acontecimentos surpreendentes relacionados com a vida humana. Tem-se a impressão de que estamos participando de mudanças radicais, tanto no aspecto material quanto no intelectual, à proporção que antigas realizações desaparecem. Mesmo as gerações revelam que o comportamento dos filhos, hoje, difere muito dos de ontem. Então, de que modo você acredita que a Moral Espírita será afetada ou poderá influenciar decisivamente a sociedade?

          Divaldo Pereira Franco:
Cada época estabelece os seus padrões éticos de comportamento, dentro de parâmetros que parecem mais compatíveis com o processo de desenvolvimento social, econômico, moral e cultural da sociedade. Apesar disso, permanecem inalterados o Decálogo de Moisés e as Leis de Amor propostas por Jesus, especialmente no Ocidente, trabalhando as estruturas íntimas da criatura humana, a fim de burilar-se o ser e alcançar a auto-realização.
          Vivemos um momento de transição espiritual do planeta, e, naturalmente, as crises de conduta se apresentam avassaladoras, conspirando contra o próprio indivíduo. Resultados de choques e distúrbios emocionais traumáticos os descalabros que, a cada instante, sacodem a sociedade, dão a impressão de ser a única saída para o indivíduo atormentado, que perdeu o endereço de si mesmo.
          O Espiritismo porém, é psicoterapia valiosa, preventiva e curadora para os transtornos de todo jaez que tomam conta da humanidade. As suas propostas libertadoras impregnarão o indivíduo, que modificará a sociedade, à medida que se transforme para melhor, exatamente conforme ocorreu com o Cristianismo nascente ante a decadência moral do Império Romano...
          Na impossibilidade momentânea de os espíritas modificarem o mundo, em se modificando pessoalmente, alcançarão a meta da transformação da sociedade para melhor.

          Marcos Ferreira: Encontramos nas recentes obras lançadas pela LEAL, da autoria de Joanna de Ângelis, por seu intermédio, um caminho para a tão almejada felicidade. É, para os Benfeitores Espirituais, uma preocupação o bem-estar dos seres humanos? Até que ponto eles interferem na felicidade inerente ao mundo?

          Divaldo Pereira Franco:
Os espíritos nobres, promotores do progresso da sociedade, interferem de todas as formas possíveis no contexto terrestre, a fim de que se apressem as instalações dos valores morais no mundo, de forma a tornar a vida mais harmônica e ditosa do que a temos no momento. Assim sendo, inspiram, orientam, amparam os homens e mulheres, e, quando necessário, mergulham na carne para ensinarem pelo exemplo as leis de dignificação e desenvolvimento que alçam o Espírito à grandeza estelar.
          É natural, portanto, que nunca haja cessado esse concurso, como podemos constatar através dos missionários que, em todos os campos de ação e em todas as épocas, têm estado no planeta ensinando, conduzindo e deixando-se flagelar pela perversidade ainda vigente em a natureza humana.

          Marcos Ferreira: Caro irmão, muito apreciaríamos algumas palavras da Mentora Joanna de Ângelis, em generosa conclusão ao presente assunto: a felicidade dos seres humanos.

          Transcrevo o que a Benfeitora respondeu sobre a questão:


           “A felicidade é um tesouro que deve ser conquistado a pouco e pouco pelo Espírito, que ruma na direção da sua plenitude. Inicialmente, assumindo a postura que define o ter e o ser. Enquanto se afadigue pela posse, ter mais e alcançar o máximo, será vítima dessa ambição e da ansiedade perturbadora dela decorrente. No entanto, à medida que trabalhe para ser melhor, ser mais produtivo, ser mais fraterno, harmoniza-se e adquire paz de consciência, caminho inicial e básico para a felicidade.
          A felicidade verdadeira, por enquanto, não é possível na Terra, conforme postulou Jesus, ao referir-se ao Seu reino, que não é deste mundo, demonstrando que a felicidade também não o é. Apesar disso, mediante submissão às Leis da Vida, todos os momentos, de alegria e de dor, de poder e de dever, de realização e renúncia, de aprendizado e de ensino tornam-se ricos de felicidade, por serem meios que levam à libertação da argamassa celular no rumo da plenitude.”