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AMAR, SE APRENDE AMANDO
por Miriam Portela
O
homem, em todos os tempos, se sentiu atraído pelo brilho distante
das estrelas e pelo pálido reflexo da lua. O espaço infinito sempre
povoou seus sonhos enchendo-o de desejos de conquista. O fascínio
pelo que brilha e ilumina tem desafiado a humanidade conduzindo-a
à ilusão do poder e à ambição da posse. O médico e psicoterapeuta
Dr. Alberto Almeida, diretor científico da Associação Médico-Espírita
de Belém do Pará, que participou do último MEDNESP, falando sobre
a inter-relação entre as três forças: sexual, erótica e amorosa, explicou,
em sua palestra, a razão da nossa grande necessidade de luz:
“Esse movimento que o ser humano faz de buscar conectar-se com
a luz é um movimento arquetípico de poder alcançar a plenitude, a
luminosidade.
Quando
Allan Kardec perguntou aos Espíritos sobre o que era o espírito, os
consultados responderam, que era uma centelha, um clarão.
Na realidade,
a busca das estrelas representa uma perspectiva interna de podermos
nos conectar com a nossa própria realidade essencial. Caminhamos para
fora. E não nos damos conta que este anseio representa, na realidade,
um movimento para dentro.
Este novo
milênio que surge, talvez seja o milênio do homem para dentro de si
mesmo. Talvez, consigamos resgatar o nosso sonho de poder conquistar
as estrelas.
Porque,
se eu sou centelha, se eu sou clarão, isso significa que o outro também
o é, e daí ser tão intrigante essa viagem do homem para o homem, através
do amor. Um desejo imenso de iluminarmo-nos no encontro com o outro...
Na perspectiva
que o Espiritismo nos assinala, talvez possamos fazer algumas reflexões
acerca da estrela que sou eu e da estrela que é o outro. Assim entenderemos
um pouco a dimensão da amorosidade. Temos mobilizado forças potentes,
na conquista do espaço: tentamos dominar a energia intra-atômica e
esquecemos que há forças poderosíssimas que jazem dentro de nós, desafiando
a nossa competência em lidar com elas. Essas forças, nós podemos dividir
didaticamente em três: sexual, erótica e amorosa. Elas, talvez, nos
ajudem a entender o movimento que fazemos na direção de nós mesmos,
no encontro com o outro.” A seguir a entrevista com Dr. Alberto
Almeida.
Folha
Espírita – Se os seres humanos são estrelas e buscam a sua própria
luz, como o amor se concretiza, nesse processo?
Dr. Alberto
Almeida – O ser humano é uma estrela, quando olhado de uma
perspectiva existencial. Na realidade, nós somos espíritos e a caracterização
foi dada pelos instrutores espirituais a Kardec, quando nos compararam
a centelhas, a clarões. Então, a nossa realidade primeira e última,
nós somos estrelas que ansiamos e temos fascínio pela luz. A ânsia
de buscar a estrela que está longe é a nossa expectativa de encontrar
a estrela perto, que somos nós. E nós podemos fazer isso, através
de um foguete, de uma bola espacial formada de amor. Na realidade,
esse espaço de amor é a meditação através da qual eu encontro a estrela
que sou eu, no encontro com o outro. Eu preciso do outro para poder
me descobrir e revelar a estrela que eu sou.
Folha
Espírita – Como amenizar os atritos decorrentes desses encontros?
Dr. Alberto
Almeida – Quando nós flexibilizamos a nossa resistência
que se situa na indiferença, no orgulho que estão expressos na nossa
onipotência de acharmos que somos os tais, nos relacionamentos, nas
relações. Quando nós assumimos os nossos medos de mergulhar em nós
mesmos e nos outros quando abrimos um pouco de espaço para ousarmos
mergulhar nessa realidade. Quando nós nos abrimos para o outro, com
mais flexibilidade e mais livre das nossas resistências, conseguimos
sofrer menos. O medo gera dor. O desejo, quando é maior do que o medo,
nos faz experimentar a anestesia dos processos dolorosos. Vivemos,
às vezes, mais com o medo de amar, do que com o remédio do desejo
de amar. Se acionarmos esse desejo e formos desarmados para o outro,
vamos sentir que o outro não nos ameaça e que nós não somos ameaça
para o outro, que eu e o outro desejamos nos encontrar. Mas nós nos
emparedamos nesse muro de ignorância, retardando o momento do auto-encontro,
experimentando a solidão, dentro das nossas quatro paredes.
Folha
Espírita – Você falou da paixão como uma das forças humanas.
Como usar a paixão nessa caminhada?
Dr. Alberto
Almeida – A paixão é o condimento que possibilita o acordar
do amor. Poderíamos dizer que a finalidade da paixão é despertar o
homem para a importância da amorosidade. Se a paixão suscita o surgimento
ao amor e se o amor se amplia, então, a paixão dá ao amor a característica
vibrante, romântica, apaixonante. Esse processo não é exclusivo da
relação a dois; ele pode ser vivido com os filhos, com as causas,
com o social. Podemos nos apaixonar por uma obra social e, se mergulharmos
nesta obra, desenvolvendo o amor, a paixão manterá o nosso ser atento,
entusiasmado. Jamais a apatia e a indiferença atingirão o nosso envolvimento
com o trabalho social. Kardec, na questão 907 de “O Livro dos
Espíritos”, pergunta se era substancialmente mau o principio
originário das paixões, embora esteja na natureza. Ao que os Espíritos
responderam que não. A paixão está naquilo que lhe acresce a vontade,
o mal. A paixão leva o homem a realizar grandes coisas. O abuso que
ele faz é que constitui o mal.
Folha
Espírita – Por que o homem teme tanto o amor, já que se trata
de uma força tão renovadora e nutritiva?
Dr. Alberto
Almeida – Porque ele não aprendeu a amar e porque traz muitas
seqüelas de desamor. Um espírito, que ao renascer encontra um casal
que lhe permite viver a maternagem, é um ser que vai ter menos resistência
para fazer com que o seu desejo de amar prevaleça sobre o medo de
sofrer do que a criança que, desde que nasce, sofre castrações, abandonos,
relaxamentos, punições. A experiência amorosa inicial vai nos permitir
criar uma matriz de sanidade, que vai nos categorizar para sermos
menos resistentes ao amor. No fundo, nosso medo de amar resulta de
experiências malogradas de amor.
Folha
Espírita – Como desenvolver esse exercício amoroso?
Dr. Alberto
Almeida – Amar só se aprende amando. Amar só se aprende
amando-se, no encontro.
Folha
Espírita – Como você vê, no mundo atual, essa busca incessante,
essa troca de corpo e de parceiros?
Dr. Alberto
Almeida – É uma busca de saciedade, de plenitude. É um desejo
imenso de poder realizar-se na relação com o outro. Mas, como as pessoas
não encontram esse itinerário e porque elas trazem cicatrizes, preferem
relações superficiais, sem maior envolvimento, porque é menos ameaçador.
Mas elas se esquecem de que esse tipo de vivência afetiva lhes traz
angústia, incompletude e depressão, porque é um movimento superficial
que não sacia os desejos profundos do ser. Aí vem todo um cortejo
de sintomatologia física e espiritual, denunciando que a pessoa está
fugindo de si mesma.
Folha
Espírita – E onde está a saciedade?
Dr. Alberto
Almeida – A saciedade só é conquistada quando nos lembramos
do que Jesus propôs: – que o homem só encontraria a sua transcendência
na relação com Deus, quando estabelecesse uma relação amorosa com
o próximo, na mesma proporção que ele a mantivesse consigo mesmo.
Nem mais, nem mesmo. Ou seja, a “Ama o teu próximo como a ti
mesmo”.
Folha
Espírita – Por que as pessoas vivem procurando a sua outra metade?
Dr. Alberto
Almeida – Porque nós temos a impressão de que nós somos
meio, que somos uma parte. Deus não economizou. Ele não precisa disso.
Ele não criou pedaços. Na realidade, essa sensação de metade nos remete
a uma fala mítica das partes que foram cortadas do ser e de um ser
que tinha quatro pernas, quatro braços e que foi segmentado, e que
essas partes estariam procurando reencontrar-se. Nós somos seres globais,
inteiros. Quando sentimos uma sensação de incompletude, achamos que
é o outro que vai nos completar. Aí surgem a histórias das metades
eternas, das almas gêmeas. São apenas expressões que caracterizam
a percepção parcial que temos de nós mesmos. Deus nos criou inteiros,
mas para nos autodescobrirmos e autoconquistarmos, nós precisamos
do outro. Não em regime de exclusividade, nem de escravidão.
Nós vamos
nos construindo desempenhando papéis de esposo, de filho, de pai...
Nós vamos transitando nesses papéis, até aprendermos a amar. A reencarnação
é uma proposta escolar para que aprendamos a amar, no exercício dos
diferentes papéis, os espíritos que estão no mesmo caminho conosco.
Folha
Espírita – Como iniciar essa aprendizagem?
Dr. Alberto
Almeida – O meu convite àqueles que desejam romper com as
muralhas do isolamento, suplantando a angústia da separação e o medo
de amar, é que possam abrir-se para si mesmos, através do autoconhecimento.
Que procurem relações verdadeiras, em que o amor possa manifestar-se
em todos os níveis de relacionamento: como pai, filho, irmão amigo.
Com esses propósitos, podemos alcançar aquilo que todos nós desejamos,
que é a felicidade, a plenitude, a realização.
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