CHICO, DE “PARNASO” A “ALMA DO POVO”


por Carlos A. Baccelli
(Uberaba - MG)



          No mês em que está a completar 70 Anos de Apostolado Mediúnico – julho de 1997 –, recordamo-nos de que Chico iniciou a sua tarefa missionária escutando os poetas... Vinham eles (certamente sob a orientação dos Espíritos Iluminados, entre eles Emmanuel) entoar cânticos à imortalidade, escrevendo pelas mãos de um jovem inculto os mais belos poemas da Vida Maior, chamando a atenção dos literatos para o fenômeno que haveria de dar significativo impulso à Doutrina Espírita no Brasil.
          Chico, enquanto regava pequena plantação de alhos nos fundos do armazém de que era caixeiro, ouvia Augusto dos Anjos, Antero de Quental, Olavo Bilac, João de Deus, Casimiro de Abreu e tantos outros que, em voltando da morte, escreveriam por ele o inigualável “Parnaso de Além-Túmulo”, única obra no gênero em toda a literatura mundial.
          O “Parnaso” intrigou os críticos, mormente os membros da Academia Brasileira de Letras, que se dividiram na apreciação do inusitado, sendo que o próprio Humberto de Campos chegou a declarar: “Eu faltaria ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pela pena do Sr. Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificaram neste planeta. Os temas abordados por eles são os que os preocuparam em vida. O gosto é o mesmo e o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical”. Humberto de Campos, à época, não poderia suspeitar que seria ele, em espírito, daí a pouco, um dos que mais haveriam de difundir a Doutrina pelo lápis de Chico Xavier, logrando alcançar, depois de morto, mais notoriedade que alcançara em vida!...
          O tempo correu desde aquele inesquecível 8 de julho de 1927, de tantas e tão gratas recordações!... Chico não é mais aquele jovem que em 1932, começava em Pedro Leopoldo, com o lançamento do “Parnaso de Além-Túmulo”, um trabalho psicográfico sem precedentes nos anais da Doutrina, desde a Codificação, chegando atualmente à expressiva marca dos 406 livros publicados, com mais de 15 milhões de exemplares vendidos.
          Aos 87 janeiros de idade, Chico praticamente se encontra impossibilitado de escrever com a vertiginosidade de outrora... O braços não mais obedecem, sem resistência, ao impulso da inspiração. Na realidade, Chico está cansado, mas... não pára! Qual se quisessem aproveitar até ao derradeiro alento o fiel medianeiro, eis que retornam os poemas e, através da verve de Cornélio Pires, continuam entoando cânticos à Vida Imortal, enquanto cuidam de tornar o entardecer da existência física do insuperável Chico um pouco mais amena.
          Curioso é que “Parnaso de Além--Túmulo” e “Alma do Povo” guardam, ainda, no espaço de 70 anos, outra interessante similaridade: em ambos, o prefácio é da lavra do próprio Chico, que, sob o título “Página da Gratidão”, escreveu em 10 de outubro de 1995.
           “Obrigado, Cornélio amigo!...
          Você me visitou em setembro findo e solicitou o nosso concurso para a formação de um pequeno livro de trovas.
          – Como? – respondi. Não posso escrever senão bilhetes rápidos. Os 85 janeiros me pesam no corpo e qualquer esforço provoca a presença da angina...
          – Mas você pode ouvir–me... ( o grifo é nosso )
          Desejo apenas transmitir, por você, algumas trovas...
          Falarei ao seu ouvido... Uma trova por dia, uma por noite... poucas palavras... Isso não será motivo de preocupação para seu médico, que é realmente, um abnegado companheiro...
          – Se é assim – comentei, – creio que posso estar ao seu dispor, de vez que não posso sair da minha cadeira de doente.
          E você, caro amigo, noite a noite, no horário de nossas preces, veio ao meu lado e segredou a trova.
          Uma por uma.
          Cinqüenta noites consecutivas...
          Você parou na trova de número cinqüenta.
          E aqui estão em livros.
          Também eu acho curioso dizer:
          – Um livro pelo ouvido...
          Creio que tudo está conforme o seu desejo.
          Só me cabe repetir: Cornélio amigo, muito obrigado! E que Deus nos abençoe.”

* * *

          Meditemos no exposto, refletindo na grandeza da tarefa que Chico vem cumprindo na Terra, em meio às maiores lutas e dificuldades.