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DOAÇÕES TARDIAS
por Augusto Cezar
Amigo,
você nos solicita indicar o destino mais aconselhável para os seus
bens, depois de sua libertação do corpo físico.
Indaga
você:
“Se
devo facear a sobrevivência, diga, por obséquio, qual o melhor modo
de deixar os recursos que acumulei? Tenho algum dinheiro, ações em
companhias diversas, terrenos vagos, dois sítios caprichosamente montados
e alguns apartamentos para alugar. Será mais justo entregar esse patrimônio
a determinados amigos, através de testamento e recomendações especiais?
Ou será mais razoável confiar os meus bens a instituições de beneficência?”
A sua
consulta nos falou ao coração e aqui estamos para a resposta possível,
que você não é obrigado a aceitar.
Usufruindo
a luz da prece, você mesmo obterá a inspiração dos Benfeitores Espirituais
que o assistem, a fim de adotar a melhor conduta.
Esquecer
o seu livre arbítrio seria privá-lo da liberdade de escolha.
Entretanto
permitimo-nos recordar um episódio que se perde nos acontecimentos
históricos do segundo milênio que estamos terminando no mundo.
O rei
de Bizâncio, Manuel I, da dinastia dos Commenos, mantinha os seus
assessores e soldados numa guerra civil contra os persas, que se defendiam
ardorosamente.
Na batalha
última em que seus súditos encontraram pesada derrota, o próprio rei
foi atingido no peito por fina lâmina ajustada à ponta de uma flecha.
O sangue lhe jorrava do tórax, quando foi cautelosamente retirado
da alimária que o servia; mas, deposto no chão, eis que o soberano
pressentiu a própria morte e encontrou forças para falar em voz alta:
–
“Companheiros e soldados amigos: temos vinte canastras na expedição,
transportando ouro e prata, jóias e pedras preciosas, em quantidade
suficiente para enriquecer-vos a todos. Retirai de minha armadura
as chaves capazes de abri-las e apossai-vos de toda essa riqueza que
vos entrego, por brinde de amizade e gratidão”.
Num momento,
as chaves trabalharam movendo as complicadas fechaduras e todo um
montão de preciosidades surgiu aos olhos deslumbrados de todos os
circunstantes.
O monarca
estava agora inerte, chamado que foi ao reino da morte, e aqueles
que o seguiam passaram a partilhar da fortuna de que se reconheciam
detentores.
Os inimigos,
porém, se mantinham vigilantes e caíram sobre os vencidos e, em minutos
breves, os herdeiros do rei acordaram para a realidade, sendo muitos
deles degolados ou escravizados.
Nem um
só dos companheiros do rei escapou do massacre ou da escravidão, enquanto
que os adversários, além da vitória fácil, surrupiaram todos os bens
que se lhes revelaram à vista.
Rogo-lhe
atenção para este tópico da verdade histórica, para que observe quão
difícil se faz a previsão, com respeito a benefícios marcados para
depois da morte.
O rei
Manuel I, que viajava conduzindo grande tesouro, efetivamente fez
a doação de tudo quanto possuía, à frente da morte, com a desvantagem
de colocar os amigos sob a ira dos adversários que os arrasaram e
espoliaram à vontade, sobretudo para satisfazer os apetites de ambição
e pilhagem de que se sentiam acometidos.
Em vista
do exposto, se você deseja beneficiar pessoas ou instituições, não
deixe as suas providências para depois, quando as suas riquezas entrarem
no campo dos inventários, difíceis de serem deslindados.
Se o prezado
amigo já despertou para a grandeza do bem aos semelhantes e quer fazer
esta ou aquela doação, não deixe isso para amanhã. Faça isso agora!
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