Desenho da fachada da casa de Mozart em Júpiter
Médium: Victorien Sardou
Extraído da Revista Espírita, de Agosto de 1858

JÓIAS DO MPB

por José Samorano Subires

          Sabemos que a música é um dos mais poderosos recursos de comunicação. É linguagem universal. Fala à alma de todos nós. É claro que não podemos generalizar o conceito, dentro do universo musical priorizado pela mídia, que na mais das vezes é agressão aos nossos ouvidos. Referimo-nos à boa música. Boa música não é apenas a erudita, mas a popular também. Temos compositores de MPB (Música Popular Brasileira) dos mais notáveis. Torna-se urgente que coloquemos suas músicas para dentro de nossos lares. As composições boas veiculam uma mensagem que edifica. O processo de repetição de uma mensagem, quando dela gostamos, contribui para fixação de valores que comporão o acervo de nossas conquistas. Sempre que cantarolamos uma música que nos agrada, fixamos o seu conteúdo. Isso ocorre, ainda que inconscientemente. Por esta razão precisamos estar vigilantes quanto ao que entra em nossos lares pelo rádio, TV e outros meios de comunicação. Isto, porque as composições empobrecidas excitam os porões de nossa mente, trazendo à tona o lixo mental indesejável, cuja eliminação, plena ou parcial, pelo menos consta de nosso programa reencarnatório. Nossa vigilância deve ser redobrada.
          Contudo, o universo da MPB oferece-nos composições de excelente qualidade. É preciso buscá-las e refletir sobre elas.
          Precisamos prestar atenção nas letras das composições, pois elas formam e alimentam os clichês mentais que seguirão conosco. É assunto sério.
          Vamos falar um pouco de dois compositores:

          * Adoniran Barbosa, autor de Saudosa Maloca, Samba do Ernesto, Trem das Onze e outras.
          * Palmeira e Biá – Dupla caipira da década de 50, já esquecida das novas gerações. Ambos compuseram coisas notáveis.
          Hoje falaremos de Adoniran Barbosa.

          Adoniran Barbosa: Saudosa Maloca
 

          Iniciemos com uma sinopse biográfica:
 
          Adoniran Barbosa é nome artístico de João Rubinato, natural de Valinhos, Estado de São Paulo, e foi o sétimo filho de um casal de imigrantes italianos. Nasceu aos 6 de agosto de 1910 e desencarnou aos 11 de novembro de 1982, em São Paulo. De família interiorana bem pobre, sempre lutou com dificuldades financeiras. Com muito orgulho, lembra os dias difíceis e fala-nos que foi garagista, pintor de paredes, vendedor de meias, operário de fábrica de tecidos, encanador, garçom, metalúrgico e muito mais. A década de 30 foi de grande crescimento para a cidade de São Paulo. O rádio surgia para promover a maior revolução nas comunicações, não superada nem mesmo pela televisão, que só chegaria na década de 50. Como muitos jovens de seu tempo, se encantou pelo rádio e pela música. Adoniran se identifica com o homem simples e rude, quase sempre analfabeto, que com o trabalho braçal ajudou a levantar a metrópole. Do cotidiano desse segmento social, de seu falar acaipirado com sotaque italianado, da musicalidade das favelas e das noitadas nos botequins, vai tirar a matéria prima para suas composições de maior sucesso. Letras que traziam o toque da inspiração superior, embora não desse conta disso. Esse aspecto fica claro na composição IRACEMA. Depois de descrever sua morte de Iracema, por atropelamento em plena Avenida São João, passa a idéia da Imortalidade, sendo possível que nem tenha mesmo se apercebido da grandeza do detalhe, de modo que a obra estava na frente de seu criador. Atentemos para este trecho da letra de IRACEMA:

          “E hoje ela vive lá no céu,
          Ela vive bem juntinho de Nosso Sinhô”
          Adoniran não fala da morte nem enfatiza seu lado suposto tétrico e aniquilador... “Ela vive lá no céu...”
          Mas é na composição SAUDOSA MALOCA, que percebemos a elevada dose de inspiração superior.
          Apreciemos sua letra:
          Saudosa Maloca
          Se o sinhô não está lembrado,
          Dá licença de contá
          Que aqui onde agora está
          Esse edifício arto,
          Era uma casa véia
          Um palacete assobradado.
          Foi aqui, seu moço,
          Que eu, Mato Grosso e o Joca
          Construímos nossa maloca.

          Mas um dia, nóis nem pode se alembrá,
          Veio os home co’as ferramenta:
          O dono mandô derrubá.

          Peguemo todas nossas coisas
          E fumo pro meio da rua
          Preciá a demolição.
          Que tristeza que nóis sentia!
          Cada tauba que caía
          Doía no coração...

          Mato Grosso quis gritá, mas em cima eu falei:
          “– Os home tá co’a razão; nóis arranja outro lugá.”
          Só se cunformemo quando o Joca falô:
          “– Deus dá o frio conforme o cobertô.”

          E hoje nóis pega paia nas grama do jardim
          E pra esquecê nóis cantemos assim:

          “Saudosa maloca, maloca querida,
          Dim, dim donde nóis passemo
          Os dias feliz de nossas vidas.

          Nessa composição Adoniran descreve um fato verídico que o tocou profundamente. Verídico sim. O prédio construído no lugar da maloca, fica em São Paulo, no centro velho da cidade, na Rua Aurora, próximo à esquina com a Rua Conselheiro Nébias. Adoniran cuidava de dois mendigos, que se chamavam Mato Grosso e Mário. Mário aparece na letra como Joca, pois Mário não rima com maloca... Coisas de poeta. Observe-se a responsabilidade do compositor na mensagem que passa. Mesmo descrevendo uma cena dramática de despejo, procedida da demolição, ele não passa a idéia de pânico ou revolta:

          * “Peguemo todas nossas coisas
          E fumo pro meio da rua
          Preciá a demolição.
          Que tristeza que nóis sentia!
          Cada tauba que caía
          Doía no coração...”
          No momento dramático em que o desespero se avizinha de Mato Grosso, o compositor diz:
          “... Mas de cima eu falei:
          * Os home tá co’a razão: nóis arranja outro lugar.”.
          Arremata com a idéia de conformidade, do bem sofrer, quando conclui:
          * “Só se cunformemo quando o Joca falô:
          * “– Deus dá o frio conforme o cobertô.”
          O final da Saudosa Maloca é magistral. Adoniran tem o cuidado de estimular a retenção apenas do lado bom da experiência sofrida, como as lebranças felizes do período em que nela viveram:
          * “E hoje nóis pega paia nas grama do jardim
          “E pra esquecê nóis cantemos assim:
          “Saudosa maloca, maloca querida,
          “Dim, dim donde nóis passemo
          “Os dias feliz de nossas vidas.”

          O móvel inspirador que o levou a compor “Saudosa Maloca”, parece segui-lo por muito tempo, numa outra composição, Imagina um abrigo para os deserdados, para que as cenas tristes do despejo não se repitam. Para isso compõe “ABRIGO DE VAGABUNDOS”. Para compreendermos a grandeza dessa composição, não podemos dar à palavra “vagabundo” a conotação dos dias atuais. A idéia mais próxima é a de “necessitados”, “abandonados”, “deserdados”, à semelhança do Vagabundo de Chaplin, vivido no personagem Carlitos. O símile é perfeito. A letra de “ Abrigo de Vagabundos” descreve a construção de uma Maloca, agora nos conformes da lei e devidamente legalizada. Sempre no estilo caipira italianado mas com fortíssima penetração no entendimento massas, com fortíssimo poder de comunicação.
          Na parte final da letra, exemplifica o desapego e o amor ao próximo, vez que a maloca legalmente construída não lhe pertence. Ele a oferece aos necessitados, a quem chama “vagabundos”, dentro da conotação já explicada.
          Observemos o final da letra:
          “Por onde andará Joca e Mato Grosso(1)
          Aqueles dois amigos que não quis me acompanhá?
          Andaram jogados na Avenida São João
          Ou vendo o Sol quadrado, na detenção.

          A minha maloca,
          A mais linda que eu já vi,
          Hoje está legalizada, ninguém pode demoli.
          A Nossa Maloca, a mais linda deste mundo(2),
          Ofereço aos vagabundos
          Que não tem onde dormi.”
Notas: (1) Alusão aos personagens da Saudosa Maloca, que eram dois mendigos, seus amigos;
(2) A imagem do desapego: “Nossa Maloca” não lhe pertencia, era dos outros.
          Como vemos, as composições estão por aí. Verdadeiras jóias da MPB. Vejam os que tenham olhos de ver... e ouçam os que tenham ouvidos de ouvir!.

                                                                 * . * . *

          No texto anterior, comentamos sobre a obra de Adoniran Barbosa e em especial sua composição “Saudosa Maloca” e seus componentes de inspiração superior.

          Agora discorreremos sobre a Dupla Sertaneja: Palmeira e Biá e sua notável composição DISCO VOADOR.
 
          Palmeira e Biá formaram uma das mais belas duplas caipiras que atuaram num momento histórico em que tudo precisava ser feito em termos de Música Sertaneja. Portanto a obra desses compositores está na base de nossa música sertaneja, atuando nas décadas de 30 a 50, quando o Rádio se consolidava como poderoso meio de comunicação de massa.
          Chama-nos a atenção o fato de que todos os pioneiros, nos vários segmentos das artes, foram almas escolhidas no mundo maior, para atuarem como desbravadoras e como pontos de referências. No cinema, Charles Chaplin é um exemplo. Seu personagem “Carlitos” pertence a todos os povos da Terra. Desde as músicas de seus filmes, que ele mesmo compunha, até a trama das histórias, fica uma mensagem de Amor e solidariedade de caráter universalista. As distorções e o empobrecimento da qualidade de nossa música sertaneja nos dias de hoje, e mesmo em outros segmentos das artes, correram por conta de almas menos qualificadas e que facilmente se tornaram presas da mídia mercenária.
          Palmeira e Biá, são nomes artísticos de Diogo Mulero e Sebastião Alves da Cunha. Palmeira foi natural de Agudos (SP) – nascido em 1918 e desencarnado em 1967.
          De Biá, sabemos que nasceu em Coromandel (MG) – em 1927. A dupla formou-se em 1952 e manteve-se até 1961. Foram anos de grandes sucessos. É dessa fase uma de suas melhores composições: Disco Voador.
          Em Disco Voador fica evidenciada a intensa inspiração de seus autores. Desconhecemos a formação religiosa de ambos, contudo a letra enfatiza dois princípios básicos da Doutrina Espírita:
 
          * A multiplicidade dos mundos habitados.
          * A Lei de Causa e Efeito.
          Reflitamos na letra com atenção:

          Disco Voador
          Tomara que seja verdade
          Que exista mesmo Disco Voador
          Que seja um povo inteligente
          Pra trazer pra gente
          A paz e o Amor.
          Se for pra o bem da humanidade
          Que felicidade essa intervenção!
          Aqui na Terra só se pensa em guerra
          Matar o vizinho é nossa intenção.

          Se Deus, que é todo poderoso,
          Fez este colosso suspenso no ar
          Por que não pode ter criado
          Um Mundo Apartado
          Da Terra e do Mar?
          Tem gente que não acredita
          Acha que é fita
          Os Mistérios profundos
          Quem tem um filho
          Pode ter mais filhos
          O Senhor também
          Pode ter outros Mundos

          Os homens do nosso planeta
          Dão a impressão
          Que já não têm mais crença
          Em vez de fabricar remédios
          Pra curar o tédio
          E outras doenças
          Inventam armas de hidrogênio
          Usam o seu gênio fabricando bomba
          Mas não se esqueçam
          Que por mais que cresçam
          Que perante Deus
          Qualquer gigante tomba.

          O nosso mundo é o espelho
          Que reflete sempre a realidade
          Quem forma vinha colhe uva
          Quem planta chuva colhe tempestade
          No tempo que Jesus vivia
          Ele disse um dia
          E não foi a esmo
          Que neste mundo
          Que a maldade infesta
          Tudo que não presta
          Morre por si mesmo.

          Sempre que o assunto Disco Voador vem à tona, está associado à possibilidade de invasores siderais. Imaginam-se grandes naves bélicas e a destruição do nosso planeta. Os compositores não se deixam levar por esse tóxico avassalador. Passam uma imagem de confiança e de uma benéfica intervenção superior. A primeira estrofe fala do otimismo quanto à eventual visita de extraterrestres.

          * “Se for pra o bem da humanidade,
          Que felicidade essa intervenção!”
          Na Segunda estrofe a Multiplicidade dos Mundos Habitados é enfática. Os autores usam recursos das mais modernas técnicas de comunicação, recursos aliás priorizados por Jesus e por Kardec, ou sejam:

          a) Partir do simples para o complexo

          b) Partir do conhecido para o desconhecido.

          Note-se que dificilmente alguém aprenderá algo fora destas diretrizes pedagógicas. Partem da observação objetiva da realidade de nosso planeta e convidam-nos a refletir na evidência de que Quem fez a Terra pode ter criado

          * “... Um mundo apartado
          Da terra e do mar”
          Em rimas ricas e belas comparam a paternidade humana com a divina. Se nós podemos ter mais filhos... O Senhor, que é Deus, também pode ter outros mundos.
          Na terceira estrofe falam-nos de quanto somos pequeninos ante a grandeza da criação e da fragilidade do orgulho humano:

          * “Mas não se esqueçam
          Que por mais que cresçam
          Que perante Deus
          Qualquer gigante tomba.”

          A última estrofe não podia ser menos enfática. É a Lei de Causa e Efeito, à qual nossa evolução se vincula e onde descobrimos sermos os construtores de nosso próprio destino. É o “a cada um segundo suas obras” constante dos ensinos de Jesus.
          Esperamos que esta série de reflexões possa nos manter mais atentos e mais seletivos quanto às programações que invadem nossos lares. Mostremos esses exemplos aos nossos filhos. Todos estão convidados a uma grande operação de resgate desses valores extraordinários que jazem no pó do esquecimento das novas gerações.
          É um erro julgarmos que o jovem não gosta dessas músicas. Ele não as conhece, esta é a verdade. Torna-se necessário e urgente que as criaturas mais sensíveis, capazes de vislumbrarem esses fulcros de belezas, tomem de suas candeias e as coloquem sobre o velador, para que suas luzes brilhem diante dos homens. Precisamos resgatar esses valores.

          Façamos isso. Valerá a pena.

                                                                    Muita Paz!