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JÓIAS DO MPB
por José Samorano Subires
Sabemos
que a música é um dos mais poderosos recursos de comunicação. É linguagem
universal. Fala à alma de todos nós. É claro que não podemos generalizar
o conceito, dentro do universo musical priorizado pela mídia, que
na mais das vezes é agressão aos nossos ouvidos. Referimo-nos à boa
música. Boa música não é apenas a erudita, mas a popular também. Temos
compositores de MPB (Música Popular Brasileira) dos mais notáveis.
Torna-se urgente que coloquemos suas músicas para dentro de nossos
lares. As composições boas veiculam uma mensagem que edifica. O processo
de repetição de uma mensagem, quando dela gostamos, contribui para
fixação de valores que comporão o acervo de nossas conquistas. Sempre
que cantarolamos uma música que nos agrada, fixamos o seu conteúdo.
Isso ocorre, ainda que inconscientemente. Por esta razão precisamos
estar vigilantes quanto ao que entra em nossos lares pelo rádio, TV
e outros meios de comunicação. Isto, porque as composições empobrecidas
excitam os porões de nossa mente, trazendo à tona o lixo mental indesejável,
cuja eliminação, plena ou parcial, pelo menos consta de nosso programa
reencarnatório. Nossa vigilância deve ser redobrada.
Contudo,
o universo da MPB oferece-nos composições de excelente qualidade.
É preciso buscá-las e refletir sobre elas.
Precisamos
prestar atenção nas letras das composições, pois elas formam e alimentam
os clichês mentais que seguirão conosco. É assunto sério.
Vamos
falar um pouco de dois compositores:
* Adoniran
Barbosa, autor de Saudosa Maloca, Samba do Ernesto, Trem das Onze
e outras.
* Palmeira
e Biá – Dupla caipira da década de 50, já esquecida das novas
gerações. Ambos compuseram coisas notáveis.
Hoje falaremos
de Adoniran Barbosa.
Adoniran
Barbosa: Saudosa Maloca
Iniciemos
com uma sinopse biográfica:
Adoniran
Barbosa é nome artístico de João Rubinato, natural de Valinhos,
Estado de São Paulo, e foi o sétimo filho de um casal de imigrantes
italianos. Nasceu aos 6 de agosto de 1910 e desencarnou aos 11 de
novembro de 1982, em São Paulo. De família interiorana bem pobre,
sempre lutou com dificuldades financeiras. Com muito orgulho, lembra
os dias difíceis e fala-nos que foi garagista, pintor de paredes,
vendedor de meias, operário de fábrica de tecidos, encanador, garçom,
metalúrgico e muito mais. A década de 30 foi de grande crescimento
para a cidade de São Paulo. O rádio surgia para promover a maior revolução
nas comunicações, não superada nem mesmo pela televisão, que só chegaria
na década de 50. Como muitos jovens de seu tempo, se encantou pelo
rádio e pela música. Adoniran se identifica com o homem simples e
rude, quase sempre analfabeto, que com o trabalho braçal ajudou a
levantar a metrópole. Do cotidiano desse segmento social, de seu falar
acaipirado com sotaque italianado, da musicalidade das favelas e das
noitadas nos botequins, vai tirar a matéria prima para suas composições
de maior sucesso. Letras que traziam o toque da inspiração superior,
embora não desse conta disso. Esse aspecto fica claro na composição
IRACEMA. Depois de descrever sua morte de Iracema, por atropelamento
em plena Avenida São João, passa a idéia da Imortalidade, sendo possível
que nem tenha mesmo se apercebido da grandeza do detalhe, de modo
que a obra estava na frente de seu criador. Atentemos para este trecho
da letra de IRACEMA:
“E
hoje ela vive lá no céu,
Ela vive
bem juntinho de Nosso Sinhô”
Adoniran
não fala da morte nem enfatiza seu lado suposto tétrico e aniquilador...
“Ela vive lá no céu...”
Mas é
na composição SAUDOSA MALOCA, que percebemos a elevada dose
de inspiração superior.
Apreciemos
sua letra:
Saudosa
Maloca
Se o sinhô
não está lembrado,
Dá licença
de contá
Que aqui
onde agora está
Esse edifício
arto,
Era uma
casa véia
Um palacete
assobradado.
Foi aqui,
seu moço,
Que eu,
Mato Grosso e o Joca
Construímos
nossa maloca.
Mas um
dia, nóis nem pode se alembrá,
Veio os
home co’as ferramenta:
O dono
mandô derrubá.
Peguemo
todas nossas coisas
E fumo
pro meio da rua
Preciá
a demolição.
Que tristeza
que nóis sentia!
Cada tauba
que caía
Doía no
coração...
Mato Grosso
quis gritá, mas em cima eu falei:
“–
Os home tá co’a razão; nóis arranja outro lugá.”
Só se
cunformemo quando o Joca falô:
“–
Deus dá o frio conforme o cobertô.”
E hoje
nóis pega paia nas grama do jardim
E pra
esquecê nóis cantemos assim:
“Saudosa
maloca, maloca querida,
Dim, dim
donde nóis passemo
Os dias
feliz de nossas vidas.
Nessa
composição Adoniran descreve um fato verídico que o tocou profundamente.
Verídico sim. O prédio construído no lugar da maloca, fica em São
Paulo, no centro velho da cidade, na Rua Aurora, próximo à esquina
com a Rua Conselheiro Nébias. Adoniran cuidava de dois mendigos, que
se chamavam Mato Grosso e Mário. Mário aparece na letra como Joca,
pois Mário não rima com maloca... Coisas de poeta. Observe-se a responsabilidade
do compositor na mensagem que passa. Mesmo descrevendo uma cena dramática
de despejo, procedida da demolição, ele não passa a idéia de pânico
ou revolta:
* “Peguemo
todas nossas coisas
E fumo
pro meio da rua
Preciá
a demolição.
Que tristeza
que nóis sentia!
Cada tauba
que caía
Doía no
coração...”
No momento
dramático em que o desespero se avizinha de Mato Grosso, o compositor
diz:
“...
Mas de cima eu falei:
* Os home
tá co’a razão: nóis arranja outro lugar.”.
Arremata
com a idéia de conformidade, do bem sofrer, quando conclui:
* “Só
se cunformemo quando o Joca falô:
* “–
Deus dá o frio conforme o cobertô.”
O final
da Saudosa Maloca é magistral. Adoniran tem o cuidado de estimular
a retenção apenas do lado bom da experiência sofrida, como as lebranças
felizes do período em que nela viveram:
* “E
hoje nóis pega paia nas grama do jardim
“E
pra esquecê nóis cantemos assim:
“Saudosa
maloca, maloca querida,
“Dim,
dim donde nóis passemo
“Os
dias feliz de nossas vidas.”
O móvel
inspirador que o levou a compor “Saudosa Maloca”, parece
segui-lo por muito tempo, numa outra composição, Imagina um abrigo
para os deserdados, para que as cenas tristes do despejo não se repitam.
Para isso compõe “ABRIGO DE VAGABUNDOS”. Para compreendermos
a grandeza dessa composição, não podemos dar à palavra “vagabundo”
a conotação dos dias atuais. A idéia mais próxima é a de “necessitados”,
“abandonados”, “deserdados”, à semelhança
do Vagabundo de Chaplin, vivido no personagem Carlitos. O símile é
perfeito. A letra de “ Abrigo de Vagabundos” descreve
a construção de uma Maloca, agora nos conformes da lei e devidamente
legalizada. Sempre no estilo caipira italianado mas com fortíssima
penetração no entendimento massas, com fortíssimo poder de comunicação.
Na parte
final da letra, exemplifica o desapego e o amor ao próximo, vez que
a maloca legalmente construída não lhe pertence. Ele a oferece aos
necessitados, a quem chama “vagabundos”, dentro da conotação
já explicada.
Observemos
o final da letra:
“Por
onde andará Joca e Mato Grosso(1)
Aqueles
dois amigos que não quis me acompanhá?
Andaram
jogados na Avenida São João
Ou vendo
o Sol quadrado, na detenção.
A minha
maloca,
A mais
linda que eu já vi,
Hoje está
legalizada, ninguém pode demoli.
A Nossa
Maloca, a mais linda deste mundo(2),
Ofereço
aos vagabundos
Que não
tem onde dormi.”
Notas: (1) Alusão aos personagens da Saudosa Maloca, que eram dois
mendigos, seus amigos;
(2) A imagem do desapego: “Nossa Maloca” não lhe pertencia,
era dos outros.
Como vemos,
as composições estão por aí. Verdadeiras jóias da MPB. Vejam os que
tenham olhos de ver... e ouçam os que tenham ouvidos de ouvir!.
*
. * . *
No texto
anterior, comentamos sobre a obra de Adoniran Barbosa e em especial
sua composição “Saudosa Maloca” e seus componentes de inspiração
superior.
Agora
discorreremos sobre a Dupla Sertaneja: Palmeira e Biá e sua
notável composição DISCO VOADOR.
Palmeira
e Biá formaram uma das mais belas duplas caipiras que atuaram
num momento histórico em que tudo precisava ser feito em termos de
Música Sertaneja. Portanto a obra desses compositores está na base
de nossa música sertaneja, atuando nas décadas de 30 a 50, quando
o Rádio se consolidava como poderoso meio de comunicação de massa.
Chama-nos
a atenção o fato de que todos os pioneiros, nos vários segmentos das
artes, foram almas escolhidas no mundo maior, para atuarem como desbravadoras
e como pontos de referências. No cinema, Charles Chaplin é um exemplo.
Seu personagem “Carlitos” pertence a todos os povos da
Terra. Desde as músicas de seus filmes, que ele mesmo compunha, até
a trama das histórias, fica uma mensagem de Amor e solidariedade de
caráter universalista. As distorções e o empobrecimento da qualidade
de nossa música sertaneja nos dias de hoje, e mesmo em outros segmentos
das artes, correram por conta de almas menos qualificadas e que facilmente
se tornaram presas da mídia mercenária.
Palmeira
e Biá, são nomes artísticos de Diogo Mulero e Sebastião Alves da Cunha.
Palmeira foi natural de Agudos (SP) – nascido em 1918 e desencarnado
em 1967.
De
Biá, sabemos que nasceu em Coromandel (MG) – em 1927. A
dupla formou-se em 1952 e manteve-se até 1961. Foram anos de grandes
sucessos. É dessa fase uma de suas melhores composições: Disco Voador.
Em Disco
Voador fica evidenciada a intensa inspiração de seus autores. Desconhecemos
a formação religiosa de ambos, contudo a letra enfatiza dois princípios
básicos da Doutrina Espírita:
* A multiplicidade
dos mundos habitados.
* A Lei
de Causa e Efeito.
Reflitamos
na letra com atenção:
Disco
Voador
Tomara
que seja verdade
Que exista
mesmo Disco Voador
Que seja
um povo inteligente
Pra trazer
pra gente
A paz
e o Amor.
Se for
pra o bem da humanidade
Que felicidade
essa intervenção!
Aqui na
Terra só se pensa em guerra
Matar
o vizinho é nossa intenção.
Se Deus,
que é todo poderoso,
Fez este
colosso suspenso no ar
Por que
não pode ter criado
Um Mundo
Apartado
Da Terra
e do Mar?
Tem gente
que não acredita
Acha que
é fita
Os Mistérios
profundos
Quem tem
um filho
Pode ter
mais filhos
O Senhor
também
Pode ter
outros Mundos
Os homens
do nosso planeta
Dão a
impressão
Que já
não têm mais crença
Em vez
de fabricar remédios
Pra curar
o tédio
E outras
doenças
Inventam
armas de hidrogênio
Usam o
seu gênio fabricando bomba
Mas não
se esqueçam
Que por
mais que cresçam
Que perante
Deus
Qualquer
gigante tomba.
O nosso
mundo é o espelho
Que reflete
sempre a realidade
Quem forma
vinha colhe uva
Quem planta
chuva colhe tempestade
No tempo
que Jesus vivia
Ele disse
um dia
E não
foi a esmo
Que neste
mundo
Que a
maldade infesta
Tudo que
não presta
Morre
por si mesmo.
Sempre
que o assunto Disco Voador vem à tona, está associado à possibilidade
de invasores siderais. Imaginam-se grandes naves bélicas e a destruição
do nosso planeta. Os compositores não se deixam levar por esse tóxico
avassalador. Passam uma imagem de confiança e de uma benéfica intervenção
superior. A primeira estrofe fala do otimismo quanto à eventual visita
de extraterrestres.
* “Se
for pra o bem da humanidade,
Que felicidade
essa intervenção!”
Na Segunda
estrofe a Multiplicidade dos Mundos Habitados é enfática. Os autores
usam recursos das mais modernas técnicas de comunicação, recursos
aliás priorizados por Jesus e por Kardec, ou sejam:
a) Partir
do simples para o complexo
b) Partir
do conhecido para o desconhecido.
Note-se
que dificilmente alguém aprenderá algo fora destas diretrizes pedagógicas.
Partem da observação objetiva da realidade de nosso planeta e convidam-nos
a refletir na evidência de que Quem fez a Terra pode ter criado
* “...
Um mundo apartado
Da terra
e do mar”
Em rimas
ricas e belas comparam a paternidade humana com a divina. Se nós podemos
ter mais filhos... O Senhor, que é Deus, também pode ter outros mundos.
Na terceira
estrofe falam-nos de quanto somos pequeninos ante a grandeza da criação
e da fragilidade do orgulho humano:
* “Mas
não se esqueçam
Que por
mais que cresçam
Que perante
Deus
Qualquer
gigante tomba.”
A última
estrofe não podia ser menos enfática. É a Lei de Causa e Efeito, à
qual nossa evolução se vincula e onde descobrimos sermos os construtores
de nosso próprio destino. É o “a cada um segundo suas obras”
constante dos ensinos de Jesus.
Esperamos
que esta série de reflexões possa nos manter mais atentos e mais seletivos
quanto às programações que invadem nossos lares. Mostremos esses exemplos
aos nossos filhos. Todos estão convidados a uma grande operação de
resgate desses valores extraordinários que jazem no pó do esquecimento
das novas gerações.
É um erro
julgarmos que o jovem não gosta dessas músicas. Ele não as conhece,
esta é a verdade. Torna-se necessário e urgente que as criaturas mais
sensíveis, capazes de vislumbrarem esses fulcros de belezas, tomem
de suas candeias e as coloquem sobre o velador, para que suas luzes
brilhem diante dos homens. Precisamos resgatar esses valores.
Façamos
isso. Valerá a pena.
Muita Paz!
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