Essa Tal Felicidade

                                                                                                                    Sebastião Bicalho

          “Só eu sei as esquinas que passei. Só eu sei... Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? Sabe lá?”
                     Djavan

          Sempre fui visto como uma pessoa calma, paciente, amiga da paz e da harmonia, e eu próprio me deixei levar, muitas vezes, por esse tipo de juízo indulgente que, em termos gerais, estampa em minha testa um rótulo difícil de carregar.
          Em minhas palestras, percebo quão difícil se torna a aproximação de algumas pessoas que querem conversar comigo, mas se sentem desconfortáveis com a simples idéia de incomodarem o “inatingível escritor”.
          Todo rótulo somente serve para alargar distâncias e tornar as pessoas cada vez mais sós.
          Outro dia, uma mulher se aproximou de mim para dizer que queria ser como eu, pois a idéia que tinha a meu respeito a convencia de meu total “equilíbrio” e “sensatez”.
          Rio dessa visão comum a meu respeito e fico apavorado com a perspectiva de me tornar um ponto de referência ou um exemplo a ser seguido, pois todas as pessoas equilibradas e sensatas acabaram sendo assassinadas.
          Disse à generosa senhora que ela estava completamente equivocada a meu respeito. Atrás da sensatez e do equilíbrio, há sempre muita dor e conflito. Questionar a natureza humana se transforma muitas vezes num verdadeiro exercício masoquista.
          Atrás do aparente equilíbrio, há muito desequilíbrio e confusão. É como arrumar a casa. Até que ela esteja limpa, temos que lavar o chão, desorganizar tudo; e nessa fase, o que se vê é a água imunda escorrendo pelas escadas e uma total bagunça por todo lado.
          A senhora não se convenceu com meus argumentos, dizendo que estava atolada em confusão até o pescoço e vivia entrando em depressão. Na sua óptica, a confusão de nada servia. Expliquei a ela que, para mim, entrar numa depressão é como entrar num túnel. Para sair dela, é preciso ir até o seu fim.
          Toda depressão tem de ser investigada profundamente. O grande problema é que as pessoas não entram nela. Ficam apenas dando voltas na superfície, amedrontadas com o que há de escuro no seu interior e não se libertam do seu espectro, perdendo grandes oportunidades de crescerem com o que ela tem a ensinar.
          Preferem os psicofármacos que as ajudam a criar a ilusão de que o monstro é um ratinho e passam toda a vida entorpecidas, vagando como zumbis em torno de sua oportunidade de redenção. Com isso, acabam se tornando escravas do medo de penetrar verdadeiramente no aparente inferno que, se devidamente enfrentado, lhes garantiria em breves tempos a tão sonhada carta de alforria espiritual.
          Entretanto a senhora não desistia de argumentar que eu seria a sua salvação, o seu guru predileto.
          Contei a ela de minhas dificuldades e lhe confidenciei os meus vícios socialmente aceitos. Disse a ela que aqueles eram apenas os vícios que poderia lhe contar, uma vez que, se lhe contasse os meus vícios secretos, correria o risco de lhe fazer corar desnecessariamente. A vida é um processo de autodescoberta em que vamos, aos poucos, traçando um plano de melhoria individual de nossas várias facetas imperfeitas.
           “Mas seria tão bom que alguém nos dissesse o que de melhor temos a fazer!” – disse-me ela desapontada.
          Sinto que a decepcionei uma vez mais quando lhe disse que seria melhor, então, que Deus houvesse criado máquinas em vez de homens.
          Disse-lhe que ninguém é dono absoluto da verdade e que todo o mundo é dono absoluto apenas da própria verdade.
          Para quebrar um pouco a sisudez do momento, repeti para ela aquele refrão popular que diz: “Galinha que segue pato morre afogada”.
          Ela sorriu gostosamente, mas acabou denunciando que não havia entendido coisa alguma do que eu dissera quando perguntou-me com um olhar de garotinha pidona: “Mas o que você acha que eu deveria fazer na vida?”
          Vasculhando todos os escaninhos de minha mente, disse a ela apenas aquilo que todos os sábios de todas as culturas em todos os tempos sempre me disseram: “Procure conhecer você mesma a sua própria verdade, porque só através dela é possível encontra a legítima liberdade”.
          E, prolongando um pouco mais o assunto, disse a ela que não se enganasse com a ilusão da felicidade fácil por detrás da conquista da liberdade. Conquistar a liberdade pressupõe também a assunção de pesadas responsabilidades que nos são constantemente cobradas.
          Quanto mais nos conhecemos e conquistamos, mais nos tornamos responsáveis e maduros. Como disse o Cristo, “a quem muito é dado, muito é cobrado”.
          As pessoas confundem felicidade com uma excessiva permissibilidade e irresponsabilidade. Pensa que ser feliz é deixar-se levar vida afora, numa seqüência infindável de prazeres inconseqüentes. Circulam pela vida fluindo seus prazeres efêmeros, que duram apenas o período em que neles se chafurdam, e depois de esgotado um, têm uma necessidade premente de pular para outro, também efêmero, para que consigam fugir do tremendo vazio que lhes espreita. Não saem do plano horizontal da existência, não crescem.
          Apenas passam pela vida, mudando as situações exteriores – que são sempre o mesmo tipo –, sem transformarem a própria situação interior, que esta sempre em petição de miséria. Isso é o que chamo de “felicidade horizontal”.
          Muito pouca gente consegue perceber que a verdadeira felicidade é aquela nascida da consciência tranqüila e da serenidade absoluta de um espírito ciente de que está fazendo o que pode para se tornar melhor a cada dia. Essa e a “felicidade vertical”.
          Nesse tipo de felicidade, a dor e o conflito são entendidos e tolerados com a sabedoria de quem conhece neles verdadeiros instrumentos para que o legítimo crescimento pessoal seja alcançado. Sim, é possível ser feliz, mesmo convivendo com a dor e o sofrimento, pois o contrário de felicidade não é tristeza; é vazio. Pouco antes da crucificação, o Cristo confessou que seu espírito estava “triste até a morte”, entretanto, o Mestre Maior vivia em estado de permanente felicidade pela certeza de ser um com o Pai. Ele vivia a felicidade duradoura; esnobava a felicidade horizontal que nos torna a todos autênticas enceradeiras espirituais, escravos desnorteados de falsas necessidades e tolos apegos.
          Entretanto, ele sabia da importância que damos as coisas sem importância. Por isso, avisou-nos como nunca dos riscos que corremos por nos deixarmos iludir pelos cantos de sereia que tais coisas nos lançam. Sabedor que era da nossa incapacidade de enxergar a natureza temporal e impermanente de tudo aquilo que não nos é essencial, foi suficientemente lúcido para nos aconselhar a busca do Reino de Deus em primeiro lugar (a felicidade vertical), para que todo o restante (a felicidade horizontal) nos pudesse ser acrescentado.
           “Mas é muito difícil aceitar isso!”, voltou a dizer a minha nova amiga. Eu senti que não valia mais a pena insistir com outros argumentos. Cada criatura tem seu momento, e, coerente com minha forma de pensar, compreendi que ela precisava de alguém que lhe desse outro tipo de amparo, pois eu não conseguiria ser o tipo de guru que ela estava procurando.
          Despedi-me dela, desejando-lhe sorte e paz, não sem antes lhe dizer: Você tem razão. É mesmo muito difícil. Mas acho que as coisas estão bem assim mesmo como estão. Se tudo fosse muito fácil, eu não veria graça alguma na vida.