ENSINE SEU FILHO A SE CONTROLAR!

DOMINAR A RAIVA É IMPORTANTE PARA O FUTURO DA CRIANÇA

                                                                                                                por Salley Shannon

          A última vez que o filho de 5 anos de Kathy Hrenko perdeu o controle, ele estava patinando. Adam tentava imitar os garotos mais velhos que davam voltas e saltos espetaculares com facilidade. Mas, toda vez que arriscava uma acrobacia, caía.
           “Vi que ele estava ficando cada vez mais irritado”, diz Kathy, de New Jersey. Por fim, Adam teve um acesso de raiva, chorando e atirando longe os patins.
          Qualquer que seja nossa idade, em algum momento todos sentimos raiva. Mas aquele que não aprende a controlar o gênio segue pela vida rompendo relacionamentos, magoando amigos, perdendo promoções ou algo pior.
           “As explosões de raiva são um meio de expressar sentimentos”, diz a terapeuta Alicia Tisdale, de Michigan, “mas não são muito produtivas. Mesmo as crianças pequenas sabem que não se sentem bem consigo mesmas quando perdem o controle. Portanto precisamos ensinar-lhes que podem optar por não ter um acesso de fúria e também conversar sobre a razão por que estão com raiva”.
          Kathy Hrenko e o marido, George, criaram formas de ajudar Adam a reconhecer quando está a ponto de perder o controle, acalmar-se, descobrir o que realmente o está irritando e então tomar a atitude adequada. Eles sabem que auxiliar Adam a aprender este tipo de controle será um processo gradual, baseado tanto em derrotas quanto em pequenas vitórias.
          Da mesma forma, uma vez que compreenda por que seu filho está zangado, você pode ajudá-lo a dominar os sentimentos. Aqui estão os fatores mais importantes que contribuem para despertar a raiva nas crianças:

          TRAÇOS INATOS

          A freqüência e a intensidade com que uma pessoa se zanga é em grande parte determinada pela personalidade. No livro “The Challenging Child” (A Criança Desafiadora), o psiquiatra Stanley I. Greenspan descreve cinco tipos de crianças: altamente sensíveis, introspectivas, rebeldes, desatentas, ativas/agressivas. “Cada um desses padrões pode ser parte do desenvolvimento de uma personalidade saudável”, diz Greenspan, “ou, se potencializados, um desafio. O importante é que, compreendendo em que tipo seu filho se enquadra, você pode transformar os desafios em aspectos positivos”.
          Uma criança de personalidade forte pode ficar zangada por razões que um colega mais tranqüilo poderia desconsiderar. Será preciso um pouco mais de tempo para ajudá-la a conhecer as alternativas à perda de controle

          ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO

          Quando uma criança está em meio a um grande salto no desenvolvimento físico ou social, ela pode ficar mais propensa a explosões. Diferentes estágios têm diferentes “deflagradores de raiva”. Uma criança de 1 a 3 anos, por exemplo, pode ficar enraivecida quando tenta pegar uma tigela de morangos e ouve: “Isto é para o jantar. Não posso lhe dar agora”. Uma criança de 10 anos está apta a aceitar a mesma resposta, porque já aprendeu a ser paciente.

          SEXO

          Em geral, os meninos expressam raiva mais abertamente do que as meninas. Deve haver uma explicação cultural para isso. Segundo Meg Eastman, co-autora de “Taming the dragon in your child” (Domando o dragão em seu filho), pais e professores “estão mais propensos a esperar e desculpar uma explosão de agressividade num menino e aceitar um acesso de choro de frustração numa menina. As crianças de ambos os sexos, porém, precisam aprender a lidar com a raiva sem violência ou manipulação”.

          VIDA FAMÍLIAR

          Uma criança contrariada por causa de um divórcio, uma doença, o nascimento de um irmão, a mudança de casa ou qualquer outro acontecimento importante muitas vezes mascara sua confusão e mágoa ficando zangada. Por se sentir magoada, tenta magoar também.
          O fato de a criança optar por fazer uma brincadeira para aliviar uma situação potencialmente explosiva, em vez de jogar a mochila do irmão – ou o próprio irmão – no chão, depende, até certo ponto, da maneira como a família lida com a raiva. Isso é mais evidente nas famílias em que a raiva leva a gritarias ou comportamentos agressivos como bater portas. Em famílias mais reprimidas, o padrão é diferente: como os membros da família se sentem constrangidos com as emoções, ficar zangado é um crime. “As crianças imitam o que vêem à sua volta”, diz Alicia Tisdale.
          Uma vez que a idade influencia o modo como as crianças reagem a acontecimentos e pessoas, aqui vão alguns conselhos sobre como ensiná-las a controlar a raiva em vários estágios do desenvolvimento:

          ACESSOS DE RAIVA EM CRIANÇAS DE 1 A 3 ANOS

          Os bebês se enfurecem quando suas necessidades físicas não são satisfeitas de imediato. Da mesma forma, uma criança de 1 a 3 anos que esteja muito cansada, faminta, com sede, magoada, amedrontada ou frustrada esperneia, chora e grita.
          Algumas crianças precisam ser contidas fisicamente, com delicadeza porém com firmeza, para que se acalmem, mesmo que a princípio resistam. É possível também ajudá-las falando-lhes num tom de voz tranqüilizante. Outras precisam ser distraídas com uma nova atividade. Para algumas, ajuda tirar uma soneca.
           “O mais importante é que os pais não se enraiveçam também”, diz Alicia. “Isso assusta a criança, pois a faz pensar: ‘Se mamãe ou papai não podem se controlar, como é que eu vou poder?’
          Não castigue uma criança com menos de 3 anos, deixando-a sozinha depois de um acesso de raiva. Segundo o Dr. Greenspan, isolar uma criança zangada pode levá-la a pensar que a raiva “é algo que faz a mamãe sumir”. Em vez de aprender que pode se sentir feliz de novo depois de ficar zangada, a criança relaciona a raiva ao abandono e ao desespero.

          FRUSTRAÇÃO EM PRÉ-ESCOLARES

          Francess Lantz, de Santa Barbara, Califórnia, estava passeando na praia com o filho Preston, 4 anos, e uma amiga com um filho da mesma idade. Quando a outra criança pegou uma vareta, Preston a quis também. “Tive de segurar Preston, que já estava aos gritos”, recorda Francess.
          Desejar o que o amiguinho tem traz geralmente frustração e raiva à criança na idade pré-escolar. Na lista de “deflagradores” incluem-se também: fome, exaustão, medo, falta de habilidade motora, incapacidade de encontrar as palavras certas para expressar os sentimentos e a situação em que um adulto assume uma tarefa que ela deseja fazer sozinha.
          Quando uma criança dessa idade está zangada, os pais podem apelar para a “atenção ativa” – eles ouvem o filho, compartilhando seus sentimentos: “Sei que está tendo um dia difícil. Você parece zangado. Quer falar comigo sobre o assunto?” Isso dá à criança a oportunidade de se compreender melhor.
          Os pais devem dizem aos filhos que é normal ficar zangado, desde que não se firam outras pessoas ou destruam seus objetos. Tire a criança da situação que desencadeou a raiva, tentando distraí-la: “Sei que você quer o caminhão do Tyler, mas não é certo tomá-lo ou bater nele. Vamos ver o que este outro caminhão pode fazer!”
          Se, após essa interação, a criança tiver um acesso de raiva, Meg Eastman aconselha ignorá-la por alguns minutos. Fique por perto, mas não lhe dê atenção. Isso faz seu filho compreender que não pode controlar você com a raiva. Após três minutos, diga: “Agora está na hora de você se controlar. Enquanto eu conto até dez, quero que se acalme.” Se o acesso de raiva continuar, dê a ele um castigo, como cancelar um passeio ao parque.

          AGRESSIVIDADE EM CRIANÇAS EM IDADE ESCOLAR

          Entre os 6 e aos 12 anos, as crianças querem ser aceitas pelos colegas. A raiva muitas vezes é uma reação à sensação de não estar integrado no grupo.
          Uma vez que as crianças desta idade desejam ser consideradas autoconfiantes e capazes, elas podem ter a idéia errada de que precisam vencer todos os conflitos. Isto pode levar a uma troca de insultos espantosamente cruéis. “Você tem cara de idiota!”, grita uma criança zangada. “Todo o mundo sabe que você é o pior do time!”, replica a outra.
          Os pais devem deixar claro que, mesmo zangadas, as crianças ainda podem escolher como reagir. Perda de controle, agressão física ou verbal são inaceitáveis. Reconheça a raiva, mas contenha o mau comportamento, pondo a criança de castigo, tirando-lhe privilégios ou atribuindo-lhe mais tarefas.
          Você também pode ensinar seu filho a aliviar a tensão de uma forma física que não seja violenta: treinar arremessos de basquete, brincar de atirar objetos para o cachorro pegar, fazer um desejo que mostre a sua ira.

          ADOLESCENTES GENIOSOS

          Muitas vezes, a raiva do adolescente vem da necessidade dos pais de proteger os filhos contendo sua ânsia de independência. Nessa idade, é mais importante do que nunca ser aceito num grupo, e nessa fase a atração sexual faz parte da aceitação. O que quer que impeça isso – como proibir o uso de uma saia muito justa ou marcar hora de voltar para casa – serve de combustível para a raiva.
          Meg Eastman aconselha os pais a ter senso de humor, desistir do controle total e estabelecer castigos – como suspensão da mesada – no caso de violação das normas domésticas. Estas devem incluir a cortesia e o respeito mútuo: gritos, violência e insultos não serão tolerados.

          Ajudar as crianças a controlar a raiva não é tarefa fácil, mas traz recompensas. Desde que Kathy e George Hrenko começaram a conversar com Adam a respeito de seus sentimentos, o menino vem progredindo efetivamente. “Agora, quando está exausto e sente que uma ‘crise’ se aproxima, ele diz: ‘Preciso descansar’”, conta Kathy.
           “Aprendemos também que o humor ajuda”, continua ela. “Quando digo a ele ‘Se você não conseguir de imediato...’, Adam conclui: ‘... desista!’”


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Extraído da revista “Reader’s Digest – Seleções”, de agosto de 1999.