OS BENEFÍCIOS DA TELEVISÃO

                                                                                                                por Fausto De Vitor

          DIÁLOGO COM O POVO

          Empenhado em escrever sobre este importante assunto com endereço aos leitores do “Correio Didier”, procuro algo que sirva de motivação inicial, algo que induza a ler o que tenho a dizer-lhes. Vou à estante, com o pensamento no sábio e bondoso autor de “Há 2000 Anos” e seu intérprete mediúnico. A mão (juro por Deus) vai direto ao livro intitulado “Chico e Emmanuel”, preciosa coletânea organizada por Carlos Antônio Baccelli, o legítimo biógrafo do querido médium. Abro-o aleatoriamente e (de novo juro) deparo, à página 26, com a jóia:
           “É preciso que nós, os espíritas, compreendamos que não podemos nos distanciar do povo. É preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do Movimento Espírita. É necessário que os dirigentes espíritas, principalmente os ligados aos órgãos unificadores espíritas, compreendam e sintam que o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar”.
          Já soube de muitas pessoas que, assim procedendo, ou seja, abrindo casualmente o “Evangelho”, ficam surpresas por encontrarem exatamente o texto adequado para a circunstância. São mistérios para os leigos mas fatos que os espíritas entendem de outro modo...
          Então, “o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar”? Na verdade, há muito, os meios de comunicação espírita são acionados em toda parte. Cumpre-se o preceito mais que simples conceito emmanuelino que diz: “A maior caridade que praticamos, em relação à Doutrina Espírita, é a sua própria divulgação”. E dialoga-se com “interlocutores subentendidos” que são adivinhados e admitidos como pessoas a quem se diz o que elas querem auferir. São os leitores, os ouvintes, os espectadores e os telespectadores.

          A INVASÃO AOS LARES

          Falemos da televisão – esse prodígio da tecnologia apenas imaginado há pouco mais de 50 anos. Como pretendo salientar o lado positivo dela, será preciso fazer abstração dos seus aspectos negativos. Este enfoque encomiástico, aliás, é muito mais objeto de preocupação e crítica por parte de quantos vêem na televisão um invasor pouco satisfatório e, principalmente, pouco respeitoso, a apelar para um consumo sofisticado e talvez enganoso, a concitar também para uma adesão religiosa hipnótica claramente interesseira e – o que é pior – a exibir situações e comportamento nada recomendáveis.
          E este diálogo que, se não destrói, banaliza todo e qualquer princípio ético ou estrutura moral, é a tônica massificante da mídia atual. Infelizmente! Diz evangélico conceito que “de ruim árvore só se podem esperar maus frutos”. A árvore, neste caso, outra não é senão a própria sociedade, que, não podendo ser melhor, se satisfaz com os maus frutos que ela mesma produz e prefere saborear, qual extravagante pintor que se extasia diante da própria obra, a exclamar: – “Que grande artista o mundo precisa conhecer!” Entretanto: – “Bella roba!...” – ironizará vizinho dado à italianidade.

          NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

          Não sejamos, porém, tão radicais na censura crítica aos meios de comunicação, mormente televisiva. De fato, nem tudo é inconveniente nos domínios do vídeo. De forma bastante louvável, exibem-se programações educativas e também instrutivas – que uma coisa quero destinguir em educar como cultivar o espírito e outra em instruir como transmitir habilitação. Por felicidade, existe a recreação sadia, limpa, isenta da violência a exaltar a crueldade e do erotismo a exaltar a safadeza. Salvam-se, portanto, com louvor as emissões feitas por entidades governamentais, assim como produtoras outras eventualmente voltadas para procedimentos didático-pedagógicos. Além da boa qualidade, sobressai a variedade de público, em observância às diferentes faixas etárias e às preferências ou interesses de categorias culturais ou ocupacionais. Ainda bem!

          ESPIRITISMO NA TV

          No Brasil, as emissoras de televisão sabem que nossas 5.000 e tantas cidades devem ter umas 8.000 instituições kardecistas e uma população de cerca de 6.000.000 (seis milhões) de espíritas declarados, sem contar alguns milhões de outros não-recenseados ou simpatizantes ironicamente chamados muralistas... De qualquer modo, constituem uma clientela nada desprezável (deixe-me o leitor criar este neologismo, pois desprezível não diz o que penso). Só que é uma fatia cujo consumo preferencial reclama enorme cuidado, para evitar impropriedades doutrinárias, e competência, para atender satisfatoriamente o enfoque adotado na conformidade do interesse desse público especial e ... muito exigente.
          A certos produtores leigos de programas informativos (reportagens, entrevistas, comentários, notícias, etc.), seja no rádio ou na televisão, pergunto ao prezado leitor se não gostaria de repetir-lhes o sábio conselho daquele célebre matemático e filósofo grego chamado Pitágoras, que viveu há 2.500 anos. Pois, relegando ao descanço o famoso teorema do quadrado da hipotenusa e outras importantes descobertas no mundo da matemática e da geometria, ele preceituou com severidade lacônica: “Cala-te ou dize alguma coisa que valha mais do que o silêncio”. O conselho pode dirigir-se a pessoas que falam até pelos cotovelos, não?
          O ideal, a todos os títulos, é ser a divulgação espírita pela TV produzida e dirigida por elementos competentes e responsáveis do próprio meio. Nada melhor. Contudo temos de reconhecer que o Movimento Espírita Brasileiro não dispõe de tais comunicadores capacitados mas apenas amadores despreparados, isto é, não dispõe de elementos comparáveis a profissionais – o que talvez possa parecer conduta interesseira, inaceitável para o muito nosso preceito cristão de “darmos de graça o que de graça recebemos”.

          BASTA DE IMPROVISOS

          Não obstante, enquanto o improviso amadorístico não cede lugar ao planejamento e execução capacitados (já não direi profissionalizados), a mensagem espírita vai – bem ou mal – adentrando os lares que tenham a ventura de sintonizar a freqüência radiofônica ou o canal televisivo.
          Desta problemática (e já o é mesmo, com todas as letras) da modernidade que envolve a Doutrina que Allan Kardec codificou para pautar a redenção da Humanidade, muito tem a nossa imprensa espírita tratado deste assunto, com preocupação, apontando falhas e carências, bem como propondo soluções e procedimentos. Dentre confrades articulistas e órgãos de imprensa, saliento o periódico “Palavra Espírita”, de Taubaté (SP), de março e maio últimos, insistindo no aperfeiçoamento da nossa comunicação de massa, com os editoriais “O Marketing dos Espíritas” e “Jesus e a Mídia”; chamo também a atenção para o artigo “Espiritismo e Televisão”, de Mário Franco, de Ribeirão Preto (SP), publicado em “A Flama Espírita”, de Uberaba (MG), edição de julho transato; isto, além de dois outros artigos moralizantes no mesmo mensário uberabense de janeiro e abril últimos, sendo “Mais respeito, senhores!”, de minha autoria, e “Espiritismo não é negócio!”, da autoria de Arnaldo Nunes da Silva, atuante nesta cidade.
          Nesta grave e inadiável contingência, quero salientar com todo o louvor o esforço despendido pelos confrades pernambucanos dirigentes da ADE-PE (Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco), por haverem realizado, com o esperado êxito, o “1º. Encontro Espiritismo e Comunicação de Massa”, no dia 20 de março, em Recife. O tema central foi (vejam que importante contribuição receberam os 70 e tantos felizes participantes divididos em 3 salas para as oficinas, entre as 15 e as 18 horas): “Como elaborar produções espíritas para rádio, jornal e televisão”. Mais incisiva ainda é a sua proposta: “A expectativa da ADE-PE é fazer com que os espíritas se conscientizem, cada vez mais, de que, num mundo integrado pelos meios de comunicação de massa, a mensagem espírita não pode ficar restrita ao ambiente interno dos centros, por melhor que seja ela. É premente a necessidade de uma divulgação ampla e simultânea, possibilitando o acesso à informação espírita em grande abrangência”.
          Concluindo, reconheço e insisto que não podemos ficar indiferentes e inativos diante desta contingência. Vamos, pois, intensificar do melhor modo possível esse diálogo com o povo, levando-lhe a incomparável mensagem espírita!