UM RETORNO À TERNURA

                                                                                                        por Stephanie Schwethen

          Ao voltar de uma viagem a trabalho, o empresário Paulo Jorge Macedo Nasser, 50 anos, foi recebido pelo filho, que correu ao seu encontro e o abraçou enfusivamente. Mas, ao contrário do abraço hollywoodiano que vinha imaginando no avião, a mulher o recebeu com um simples olá.
           “Foi difícil esconder meu desapontamento”, lembra.
          O desejo de ser tocado e acariciado com ternura é uma necessidade humana primária. Até mesmo os recém-nascidos buscam isto; seu desenvolvimento é prejudicado, se o contato de pele lhes for negado.
          O casamento oferece todas as condições para se experimentar a intimidade emocional e física almejada. Mas na vida real muitas vezes ocorre algo diferente. Segundo estatísticas sobre o divórcio, dois entre três casais têm a possibilidade de envelhecer juntos. Mas até que ponto são felizes?
          Muitos casais permanecem juntos, embora se tenham tornado indiferentes um ao outro.
          Especialista em relacionamento de casais, o psicanalista Alberto Goldin constata: “Estar separado dentro de um casamento é uma realidade muito freqüente no Brasil”. O que desapareceu da vida desses casais? O que está faltando, impedindo-os de serem felizes? A resposta é: ternura. Eis quatro maneiras de trazê-la de volta ao seu casamento.

          O PODER DO TOQUE

          O tédio e a frieza emocional muitas vezes já aparecem quando os parceiros estão construindo sua vida em conjunto. Empregos e filhos quase sempre ocupam o lugar principal. O primeiro sinal de aviso é um descontentamento latente ou uma vaga decepção, que em geral é projetada sobre o parceiro. E uma acentuada modificação no erotismo.
          A freqüência do sexo diminui gradualmente em todo relacionamento a longo prazo. Mas isso não é sinal de que os cônjuges se amem menos. No entanto, se o desejo pelo contato físico desaparece completamente, o coração não mais se alegra com o sexo; os sentimentos calorosos e sensuais se tornam raros. Isto é sinal de perigo. Se o casal não quiser cair na indiferença e no tédio, nesse momento deve ser traçado o rumo para a ternura. Esta mudança de linha nem sempre é fácil – mas é possível, mesmo em casamentos embotados e em que há muitas brigas. O que as pessoas podem fazer para sair desta armadilha de indiferença?
          Segundo as estatísticas, os amantes novos se tocam 37,8 vezes por dia. Mas quantas vezes os parceiros de um casamento “velho” se abraçam e acariciam? Certamente, isto varia de casal a casal.
          Fazer massagem um no outro, abraçar-se regularmente, aninhar-se para assistir à TV juntos, dar uma caminhada ou adormecer de mãos dadas, aconchegando-se de manhã – todos estes contatos conservam uma intimidade terna de modo simples.
          Mas como este tipo de contato está ligado ao sexo no início do relacionamento, mais tarde conduz a desentendimento. O afeto é reservado para as noites de paixão (cada vez mais raras). Muitas vezes, só o que sobra no tempo restante são os rápidos beijos de cumprimento.
          Muitas não se dão conta disto – apenas sentem que falta algo. Mas talvez o acaso possa levá-los de volta a seu caminho – como o casal de cirurgiões-dentistas Jamilla Barroso e Francisco de Assis Maciel da Silveira. “Há alguns dias, ele foi ao meu consultório para fazer a moldagem de uma prótese. Entrei no pequeno laboratório onde ele estava e comecei a lhe dar recomendações sobre o trabalho, que exige cuidado e atenção. De repente, houve um inevitável contato de pele e sentimos uma forte troca de energia entre nossos corpos. Acabei pendurada no pescoço dele e voltamos a ser o casal de namorados que sempre fomos”.

          A INICIATIVA FEMININA

          Diz uma secretária carioca, 39 anos, casada há 21, falando por esposas de muitos anos: “Meu marido não me deseja tanto quanto antes. Apesar de termos um filho de 4 anos, não fazemos sexo há quase 2 anos”. E como o marido vê isto? “Ele pensa que não estou interessada em sexo”, diz ela.
          Este mal-entendido é típico de muitos casamentos mais antigos, como descobriu a sexóloga Marilene Cristina Vargas, numa pesquisa no Núcleo de Estudos de Sexologia e Geriatria do Paraná. Ambas as partes tacitamente supõem que é o outro que não o deseja! Motivo: o sistema erótico costumeiro não funciona mais como funcionava nos primeiros anos.
          Quantos mais antigo o relacionamento sexual, menos o homem representa o papel tradicional de conquistador. Então, cabe à mulher demonstrar interesse pelo sexo. Se ela ficar esperando passivamente que ele se aproxime, aí o relacionamento irá se deteriorar.
          Romper este bloqueio exige coragem, a princípio. Diz Elizabeth Fernandes, 48 anos, bancária: “Mais uma vez meu marido chegou exausto do trabalho. Na verdade, ele detesta sair de casa depois de um dia difícil. Mas naquela noite ele queria algo diferente. Sabendo que ele se preocupa muito com minha segurança, aproveitei o fato de ter de buscar um documento na casa de uma colega para pedir que me acompanhasse. Ao reparar que eu estava bem-arrumada, ele não resmungou tanto quanto de costume. E, como ele estivesse cansado, decidi dirigir. Passamos rapidamente na casa de minha amiga e o surpreendi com um convite: um jantar-dançante com final romântico. Ele não ficou nada aborrecido, como eu receava. Bem ao contrário”.
          Na verdade, o receio de ser rejeitado quase sempre não tem fundamento. Esta é a conclusão de Marilene Cristina Vargas, autora do livro “Manual do Orgasmo”, baseado em centenas de cartas e depoimentos: “Muitos homens revelam que gostariam que a mulher manifestasse sinais de interesse”.

          O ESPAÇO DE CADA UM

          O que há de tão excitante no amor jovem e tantas vezes falta aos casais “velhos”? Curiosidade. O que falta no amor jovem e é tão gostoso num “casamento velho”? Intimidade. Ambas são importantes para que os parceiros possam crescer juntos e ainda permanecer eroticamente atraentes um para o outro.
          Os terapeutas de casal consideram que o “equilíbrio saudável entre a proximidade a distância” é um importante fator da felicidade. Os casais que se separam regularmente enfatizam como são estimulantes esses intervalos para sua sensualidade.
          A professora de arte e decoradora Magda de Mesquita Pandolpho, 44 anos, de São Paulo, que é feliz com o marido há 24 anos, diz: “As separações freqüentes, quando meu marido viaja pelo País e para o Exterior a trabalho, mantêm vivo nosso amor”.
          Mas, mesmo quando os parceiros não se separam fisicamente, a autonomia ainda pode existir – através de interesses e atividades individuais. Muitos cônjuges receiam que acabarão por se distanciar, se cada um seguir seu rumo. No entanto o oposto tende a ser verdade: as pessoas subconscientemente cansam-se umas das outras quando fazem tudo juntas.

          A ARTE DO DIÁLOGO

          Alberto Goldin encontrou uma diferença marcante entre os casais eroticamente realizados e os descontentes: “Os casais felizes sempre mantiveram o diálogo, como sinal de respeito e afeto pelo parceiro”. Não dizer nada é de fato um dos maiores perigos para a paixão; o diálogo franco, por outro lado, é um dos melhores incentivadores do amor. E, afinal, o que significa o diálogo? Simplesmente a comunicação que vai um passo além da conversa normal sobre assuntos corriqueiros.
          Os amantes novos revelam muito sobre si, falam de seus sentimentos pelo outro e deixam que este partilhe de seus pensamentos. Se a comunicação começa a se extinguir, “a excitação erótica também termina por secar”, diz Goldin. Ele observa que, nas terapias conjugais, muitas vezes o único caminho para recuperar um casamento é o diálogo. E desenvolveu uma técnica para ajudar os casais que não dialogam: o especialista sugere que, uma vez por semana, os parceiros saiam sozinhos para fazer um programa como nos tempos de namoro. As regras: devem falar livremente.
          Nunhuma acusação deve ser feita, nenhuma pressão exercida – eles devem apenas ouvir um ao outro. Sobre o que devem conversar? Sobre si mesmos, sobre o relacionamento que mantêm, sobre suas sensações físicas, seus desejos eróticos.
           “O casal deve tentar romper os modos habituais e recuperar o frescor do diálogo”. Começar não é fácil. Mas vale a pena tentar. Os parceiros logo se sentem estimulados – e assim se estabelece um solo fértil para a ternura.
          A sanitarista aposentada Mirian Ramos da Silva, 58 anos, viveu essa experiência. Aceitou o convite de um casal para passar uma temporada com o marido num apartamento vazio em outra cidade.
           “Ali, longe da rotina e de nossas filhas, tivemos mais chances para conversar. O diálogo nos aproximou como nunca. Todas as tardes, nos sentávamos num banco de praça e ali falávamos de tudo. Ele relembrou nossa vida em comum, os dias de namoro, as dificuldades superadas, e fizemos muitos planos para o futuro. Numa daquelas tardes, ele me revelou: ‘Conquistamos tudo juntos, amadurecemos juntos e hoje tudo que desejo é viver para sempre a seu lado’”.



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Extraído da revista “Reader’s Digest – Seleções”, de agosto de 1999.