PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

                                                                                                        por Sebastião Bicalho

          “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.   (MT, 28:19)


          A humanidade, desde os seus primórdios, sempre manteve com a divindade uma relação de absoluta estranheza e perplexidade.
          A crença num ser superior sempre levou o homem a se posicionar como um ser menor, insignificante, que para se manter seguro e protegido precisava se colocar na posição de inferioridade e submissão a algo que lhe parecesse uma autoridade a quem sempre prestaria cultos, numa atitude mais de medo que de amor e respeito.
          Desde Moisés, passando pelos índios e vindo até os dias de hoje, Deus tem sido visto como uma figura aterradora e vingativa, cuja “ira” sempre se abate sobre os ímpios e empedernidos.
          Trazendo uma proposta totalmente revolucionária e contrária a essa imagem medonha, Jesus Cristo bem que tentou mostrar um Deus diferente; um Deus a quem chamava carinhosamente Abba (papai), para demonstrar como é amorosa e acolhedora a imensidão da Misericórdia Plena que nos criou.
          Para mostrar como o Pai é magnânimo e bondoso, contou-nos a fábula do filho pródigo; para derrogar a visão preconceituosa da lei vigente, protegeu a adúltera e andou por entre publicanos e pecadores; para nos orientar rumo ao que realmente nos importa, mostrou-nos a desimportância de rituais vazios, alertando os fariseus sobre a sua hipocrisia nas sinagogas.
          Mais que qualquer outra coisa, o Cristo foi o exemplo mais que perfeito de como nós devemos agir para chegarmos mais perto de Deus.
          Ciente de que somente nos mirando em sua atitude chegaríamos ao Pai, o Cristo nos disse que ninguém iria até Deus se não fosse por seu intermédio, e que ele era o caminho, a verdade e a vida.
          Muita gente acha que o caminho para Deus é trilhado apenas pela oração ou pela contemplação.
          Muitos isolam-se em locais retirados ou afastam-se do convívio social, sob o pretexto de buscarem a Deus com maior dedicação e concentração; entretanto ficam como cegos que procuram a luz, incorrendo no erro básico de acharem que Deus é algo externo que só se alcança pela excessiva reverência e bajulação.
          Desconhecem que o encontro real e verdadeiro com a energia divina se dá apenas com a integração de três naturezas em apenas uma, e todas as três naturezas não se encontram fora de nós, pois o Reino de Deus está em nosso próprio interior, como disse o Cristo.
          Entretanto, como lograr a síntese de achar 3 em 1, e como encontrar dentro de nós algo que sempre foi buscado de forma atabalhoada, fora de nós? Como aceitar que todo o nosso campo de visão espiritual direcionado para as estrelas não conseguiu encontrar Deus, simplesmente porque todo o tempo Ele estava habitando o nosso próprio universo interior?
          Encontrar Deus é parar de procurá-Lo para deixar que Ele mesmo nos ache. A ânsia da busca afasta toda a possibilidade do encontro.
          A geometria nos ensina que bastam 3 pontos fora de uma mesma reta para que se defina um plano.Três pontos definem o equilíbrio e a harmonia, razão pela qual uma cadeira ou uma mesa de 3 pernas não manca.
          Espiritualmente, para alcançar o equilíbrio e a harmonia, o homem também precisa se apoiar em 3 pontos básicos para chegar à sua plenitude.
          Se ele quiser chegar à transcendência, tem de passar pelo conhecimento de sua própria essência, o que somente pode ser logrado se ele for habilidoso ao lidar com o melhor instrumento que tem em mãos: a impermanência.
          Transcendência, essência e impermanência: estas são as 3 faces de Deus.
          Ao lidar com o caráter temporal e impermanente da vida, utilizando-o como ferramenta para o crescimento do espírito, o homem valoriza a sua experiência terrena e se prepara para o tão aguardado encontro com Deus
          Vivenciando situações diversas no teatro da vida, desempenha diversos papéis e experimenta inúmeras emoções que o vão desafiando a transmutá-las no único sentimento que verdadeiramente interessa ao espírito: o amor.
          Em síntese, em cada momento de nossa vida terrena, agimos como personagens que vivem momentos de inveja, ódio, compaixão, ternura, cobiça, avareza, solidariedade e tantas outras emoções que só têm algum sentido se forem transformadas no amor; única coisa que interessa ao ator que queira agradar verdadeiramente ao Grande Diretor Cósmico.
          Afastar-nos das situações mundanas sob o pretexto de nos proteger das tentações, é afastarmo-nos de nossa condição de aprendizes cósmicos, que, através de novos e estimulantes desafios, capacitam-se a serem testados e aprovados no grande vestibular da vida. Lidar inteligentemente com a impermanência, leva-nos a um profícuo trabalho de melhoramento de nossa essência; a nossa identidade única que vai se aprimorando e se aproximando da perfeição que é possível.
          A alma que se entrega ao trabalho de conhecer-se, vai se tornando cada vez mais pura e mais próxima da divindade. Quanto mais ela se limpa, mais ela absorve a luminosidade que lhe chega e mais ela transmite a luz que já tem em si. E quando a essência já não se contém, de tanta harmonia, descobre que seu ego não tem mais razão de ser como algo manifesto que apenas atesta a sua separatividade do Todo. Então, ela abre mão de todo e qualquer apego egoístico para se entregar à transcendência.
          É sob esse ponto de vista que podemos entender o desabafo de Paulo de Tarso:

          “Já não sou eu quem vive, mas o Cristo é que vive em mim”.
                                                                                                            (GAL, 2:20).


          As almas que já conseguiram integrar os 3 aspectos de Deus em si, são geralmente vistas como loucas por aqueles que ainda nem sonham em chegar lá.
          Como entender um homem que abandone uma vida de conforto e riquezas para se dedicar ao celibato e aos doentes? Certamente, muitos podem aceitar, mas poucos podem entender o que pode ter passado na cabeça de São Francisco, Irmã Dulce, Madre Teresa e outros tantos que souberam integrar como ninguém os aspectos de impermanência, essência e transcendência.
          Buscar Deus é estar atento aos seus 3 aspectos.
          É ser um pescador atento no mar da vida.
          É pescar pérolas na impermanência; pescar a própria alma, em busca de nossa própria essência; e pescar estrelas no caminho da transcendência.
          Quem tiver olhos de ver, que veja.