CHICO XAVIER — UMA CONVERSA A DOIS

                                                                                                        Carlos A. Baccelli

          Conversávamos sobre mediunidade no tempo, quando Chico, às vésperas de completar 61 anos de atividade mediúnica, nos disse:

          – Quanto mais o tempo passa, mais me reconheço na condição de simples instrumento dos Espíritos Amigos; nada do que está nos livros me pertence – eu não seria capaz de conceber tanta coisa maravilhosa!... A mediunidade tem me ensinado a me enxergar melhor; a convivência com os Espíritos tem colocado à mostra os pontos frágeis da minha personalidade... Infelizmente, decorrido este tempo todo, percebo que o meu aproveitamento tem sido mínimo; não pude ainda superar-me segundo a expectativa deles, os Benfeitores que me acompanham desde o início... Certa vez, Emmanuel me disse: – “Desde que suas imperfeições não interfiram tanto no trabalho, elas não nos interessam; a questão de sua necessária renovação é pertinente a você...” Tenho me esforçado para não ser um obstáculo na tarefa que, por meu intermédio, eles vêm desenvolvendo... Habituei-me tanto a ser médium, que, sinceramente, não gostaria de ter sido outra coisa. Recebo os ataques que me são desferidos, como é natural, com uma certa tristeza, mas não consigo parar... Os que sempre me criticaram para mim eram, como continuam sendo, companheiros interessados na minha melhoria. No que me diziam, muitos deles estavam com a razão; refletindo no que escreviam contra mim, procurava ser mais vigilante para não cair... Muitos médiuns hoje não querem ser criticados; quando se vêem alvo de observações um pouco mais contundentes, ameaçam deixar tudo – querem um caminho atapetado de flores por onde possam passar!... Ora, Allan Kardec enfrentou uma barra muito pesada... Os pioneiros da Doutrina sofreram muito... Por que conosco haveria de ser diferente?! A maioria dos médiuns entende mediunidade como sendo uma missão, ao passo que – pelo menos é assim que Emmanuel tem me ensinado – mediunidade é um instrumento de reajuste. Há muito médium que sofre por falta de reconhecimento: desejariam ser aplaudidos, elogiados... Ora, elogiados por causa de quê? Só se formos elogiados por causa dos nossos defeitos, não é mesmo?!...

          – De forma que, eu não tenho o de que me queixar. Posso dizer que tenho sido feliz; nunca faltei aos Espíritos, mas eles também nunca me faltaram... Aceitaram-me como sou e, em retribuição, aceitei a disciplina que me impuseram. Nunca Emmanuel ou Dr. Bezerra chegaram a mim dizendo:

          – “Chico, você precisa deixar de errar nisso ou naquilo...” Não, nunca me fizeram qualquer exigência nesse sentido. Convivendo com a bondade deles é que, aos poucos, fui percebendo que eu precisava ser digno da confiança que em mim depositavam. Embora um tanto doente, não sinto cansaço. Vou com alegria para a tarefa, ao encontro dos nossos irmãos que nos esperam... Tenho tudo o de que necessito para uma vida tranqüila; não me falta remédio, a comida do dia; almoço e janto como todo mundo, tenho amigos maravilhosos... O que é que eu posso querer além do necessário?!... Dinheiro!... Deus me livre de dinheiro. Sempre que uma soma maior venha parar às mãos, foi para trazer uma maior confusão... Melhor ter chegado hoje aos quase 80 de idade com a consciência tranqüila! Não quero nada no meu nome – até as roupas que eu uso me têm sido dadas por amigos. Às vezes, não tenho tempo de cortar as unhas... Vejo que muita gente repara e pensa: – “O Chico está sujo; não deve ter tomado banho. Ah, eu queria ter tempo para poder prestar atenção a essas coisas! A mediunidade me absorveu tanto, que passo dias inteiros sem me olhar no espelho para ver se pelo menos não vou espantar ninguém... (risos). Uai, a gente também não pode escandalizar demais as pessoas, dando-lhes motivos para saírem dizendo: – “O Chico está esclerosado; a idade afetou a cabeça dele...” (risos). Digo isso tudo a vocês, para que vocês compreendam a minha luta. Tenho feito o possível para continuar sendo o Chico dos primeiros tempos, porque, às vezes, eu também tenho saudade de mim...

          – Não encontro, sinceramente não encontro justificativa alguma para tanta vaidade nos médiuns!... Coitados, eles vão sofrer muito!...A realidade no Mundo Espiritual é muito dura. Alguns companheiros desencarnados de vez em quando aparecem. Outro dia, estive com Fernando de Lacerda, o grande médium português que veio morar no Brasil; ele me disse: –“Chico, estou querendo reencarnar para esquecer...” E Fernando de Lacerda foi um homem despojado ; infelizmente, passou até fome no Brasil e deixou o corpo gritando: – “Ouro! Quero ouro!...” Prometeram a ele – os espíritas brasileiros que o trouxeram – prometeram amparo, a ele e à família e, depois, viraram-lhe as costas... Ele deixou o corpo em estado de extrema penúria. De maneira que, quanto mais o tempo passa, mais reconheço o médium inútil que eu tenho sido. Agradeço as homenagens dos amigos; vocês todos são maravilhosos, mas cá dentro de mim eu sei que, de fato, eu não passo de um cisco – a grama ainda cresce, o cisco é cisco a vida inteira... (risos) Vocês me perdoem esta conversa. De vez em quando, a gente tem vontade de extrapolar... (risos).Convém a gente não pensar muito e, se Emmanuel estivesse por aqui, ele já me teria dito: – “Chico, você está conversando demais...” (risos).