RECORDANDO OS NATAIS COM CHICO XAVIER
Carlos A. Baccelli
Recordo-me que nós, os freqüentadores do “Grupo Espírita da Prece”, em Uberaba (MG), aguardávamos a chegada do Natal, com ansiedade, para que, na agradável companhia de Chico Xavier, comemorássemos o nascimento de Jesus. Na véspera do dia 25, saíamos da casa do médium, em pequena caravana, percorrendo os bairros pobres da cidade, deixando para trás as tertúlias e os lautos banquetes com que costumávamos festejar a noite de Natal. Os nossos familiares, a princípio, estanhavam aquela nossa mudança de hábito, muitos, inclusive, rotulando-nos de fanáticos: – “Onde é que já se viu – diziam – deixar de passar o Natal com a família e com os amigos para visitar a periferia...”
Mas nada, de fato, se comparava àquela alegria íntima que Chico nos proporcionava, desfrutando de sua convivência – sentíamos que, em verdade, nunca festejáramos o Natal de forma tão condizente!
Partíamos por volta das 20 horas do dia 24 e a abençoada peregrinação só era concluída na madrugada do dia 25, quando, há exatos dois mil anos, Jesus veio ao mundo ensinar-nos justamente o que Chico Xavier estava novamente nos ensinando – o amor aos semelhantes. Em torno das 3 horas da manhã do dia de Natal, escutando o cantar dos galos da vizinhança e sob o brilho sereno das estrelas irmãs daquela de Belém, acompanhávamos o médium numa prece, antes que fraternalmente nos abraçássemos e nos despedíssemos. A prece de encerramento da nossa peregrinação natalina era feita na casa de uma senhora que nos recebia com bolos, biscoitos e pães-de-queijo, que se faziam acompanhar com fumegantes chás aromáticos – chá de canela, de cravo, de maçã e... um café feito na hora para quem desejasse espantar o sono.
Era um exercício de paciência e de bondade. Em cada casa visitada por nós, Chico deixava uma pequena lembrança – brinquedos para as crianças, roupas, pães, doces e, principalmente, muita alegria. Ele não tinha pressa – aliás, Chico nunca teve pressa. Entrava em todas as casas, conversava, sorria, fazia uma prece, contava uma história... Ia se revezando, de braços dados com uns e outros – todos esperávamos o momento de lhe dar o braço e de lhe ouvir mais de perto as palavras iluminadas de sabedoria. De quando em quando, no meio da noite, ele parecia fitar algo no céu estrelado e se transfigurava em silêncio, com os olhos marejados...
Seguindo-o no carro que o conduzia, adentrávamos ruas estreitas, quase intransitáveis, chegando a choupanas erguidas à beira de despenhadeiros ou a palhoças que para ele, com certeza, sugeriam uma estrebaria – era como se ele estivesse, naquela noite, numa roupagem diferente de rei, procurando avidamente, como três outros reis haviam procurado, o local do nascimento de uma criança...
A peregrinação natalina de Chico Xavier, no entanto, começava nos primeiros dias de dezembro – a grande distribuição de cestas básicas no “Grupo Espírita da Prece”, a visita ao leprosário em Goiânia, aos doentes de “fogo-selvagem” em Uberaba, aos presos do Carandiru, em São Paulo... Diversas instituições espíritas sempre receberam de suas mãos algum tipo de auxílio para as suas campanhas de Natal – doações financeiras que ele repassava, tendo o cuidado de colocar o dinheiro dentro de um envelope e de entregá-lo com a maior discrição possível. Nós mesmos dele recebíamos para o Natal do “Bittencourt Sampaio”, a Márcia para o Natal da Cantina “Maria João de Deus”, o Sr. Joaquim Cassiano para o Natal do “Vicente de Paulo”, os irmãos João e Lázaro para o Natal do “Lar Espírita de Lázaro”...
Interessante é que, por vezes, nos melindrávamos, porque ficávamos enciumados de outros companheiros ao lado dele – não tínhamos ainda percepção da grandeza daquela hora! Entendendo a nossa infantilidade, Chico procurava dividir atribuições conosco – uns repartiam pães, outros tomavam conta das filas que se formavam nas ruas, alguns transmitiam passes nos doentes acamados ou proferiam preces...
Em um casebre humilde, as crianças o recebiam com flores e canções natalinas; noutra residência pobre uma folia-de-reis o esperava com a bandeira do Divino – cantavam para ele, e ele, o tempo todo, segurando a bandeira... Lá fora, a multidão que sempre se aglomerou ao redor de Chico Xavier! Às vezes, tínhamos que sair às pressas: era muita gente para pouca coisa – ainda não sabemos multiplicar pães e peixes para mais de cinco mil pessoas fazendo sobrar doze cestos...
Inesquecíveis Natais com Chico Xavier! Inesquecíveis dias de tantas saudades e recordações!...
De permeio, a sua mediunidade ímpar, sublime e bela! – as notícias de Jesus, as interpretações dos ensinamentos do Mestre, os recados do Mundo Espiritual, o agradável perfume dos campos da Galiléia, o marulhar das águas do Tiberíades e o colorido das flores que margeavam as estradas de Cafarnaum...
Chico, sem dúvida, é maior homem do que médium! A sua presença entre nós é algo da presença do próprio Cristo!...
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