DE PALETÓ E GRAVATA

                                                                                                        Ramiro Gama

          Certo médium e orador, mais orador do que médium, onde estivesse, ocupando a tribuna, desancava falatórios contra companheiros da mediunidade que se dedicavam à recepção de mensagens psicográficas que os desencarnados remetiam aos seus familiares na Terra:
          – Isso agora virou modismo... Essa fase de os espíritos escreverem aos que deixaram saudosos no mundo já passou... O que andam fazendo por aí é uma vulgarização da mediunidade... O contato com os mortos seria, então, privilégio dos espíritas?!...
          E acrescentava, ferindo, qual se o trabalho dos aludidos medianeiros lhe estivesse fazendo sombra ao prestígio doutrinário, que, em verdade, não ia além dos limites de sua própria imaginação:
          – Na condição de médium responsável que me considero, não me exponho a semelhante ridículo... O povo está precisando é de ouvir a mensagem da Doutrina Espírita... Esses nossos companheiros nos estão prestando um desserviço: decoram nomes e procuram se inteirar, previamente, dos assuntos abordados nas supostas páginas recebidas por eles... Ora o fenômeno, para ser legítimo, não prescinde da espontaneidade...
          Quando alguém lhe pedia que intercedesse, mediunicamente, na obtenção de noticias de ente querido que partiu, recusava-se dizendo:
          – Não há necessidade disso... Não acredite nessas coisas... Tudo não passa de armação desse pessoal que se traveste de médium...
          E, de paletó e gravata, sempre cheirando a perfumes caros, assomava à tribuna, de onde, depois de breve exposição doutrinária, saía aplaudido estrepitosamente, colocando-se, a posteriori, à disposição dos cumprimentos e dos autógrafos nos livros de sua autoria mediúnica, escritos, quase todos eles, no aconchego do bem montado escritório em sua própria casa.
          Sentindo-se vítima da difamatória campanha empreendida pelo ideal que se destituíra de todo e qualquer bom senso, anônimo medianeiro dedicado à tarefa psicográfica de consolação, procurou ouvir a palavra de um psicógrafo mais experiente nas lides do intercâmbio com os desencarnados, dele recolhendo as sábias e confortadoras asserções:
          – Meu filho, não se aborreça... Infelizmente, os médiuns também disputam entre si. Continue no cumprimento do dever... Este fala, aquele escreve... É possível que esse nosso amigo não queira a tarefa sacrificiosa que nos coube, no atendimento ao público... De fato, uma palestra esclarecedora pode valer mais do que um livro, no entanto, uma palestra, na maioria das vezes, não consome mais que sessenta minutos. Ao passo que as escrita de um livro, mesmo que esse seja mediúnico, exige muitas e muitas horas de trabalho... O médium psicógrafo no serviço do intercâmbio consolador, não pode dispensar o contato direto com aqueles que o procuram, ansiosos por uma palavra do coração querido que partiu... E, segundo a nossa concepção humana, o que nos é mais gratificante ao personalismo: falar durante uma hora, ou um pouco mais, a uma assembléia de magistrados, doutores, universitários, gente de classe social mais elevada, ou ficar horas inteiras, atendendo nas longas filas de desespero, as lavadeiras que perderam seus filhos, pedreiros que perderam as esposas, costureiras que perderam seus maridos?!... Ao término da concorrida conferência em espaçosos anfiteatros, aplausos e encômios ao orador, mas, ao final de uma sessão de psicografia no acanhado e singelo recinto da casa espírita, lágrimas...

          E, após breve pausa, arrematou:

          – Esperamos que os nossos irmãos espíritas oradores nos deixem em paz com a nossa prova, porque, para nós, médiuns psicógrafos na abençoada tarefa da consolação, o desgaste natural que o serviço mediúnico nos impõe é, de fato, uma prova!
          Que sejam eles os missionários... Quanto a nós, fiquemos com a bênção da provação pedindo-lhes, no entanto, por caridade, que nos deixem seguir em paz, sem que levem adiante essa campanha que, longe de denegrir-nos em nossa acentuada indigência espiritual, acaba por subtrair a fé nas almas que ainda não aprenderam a separar o joio do trigo!...
          Registrando as considerações do irmão mais velho, cuja vida tem sido inesgotável fonte de luz a jorrar sobre os caminhos ressequidos do mundo, o irmão mais novo esqueceu a crítica e recobrou ânimo no trabalho.



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Página recebida pelo médium Carlos A. Baccelli, em reunião do Lar Espírita “Pedro e Paulo”, no dia 3 de outubro de 1998, em Uberaba (MG).